Nos documentos, 86 anos. Na vida, 102. Para Arcival Gomes Ferreira de Lima os dias já não passam tão depressa. Quem o vê, sentado em sua cadeira de descanso não imagina sua história de vida. O idoso foi vítima do preconceito, típico do início do século XX.
Arcival foi abandonado em um mata logo depois do nascimento na cidade de Ronda Alta, no Rio Grande do Sul. A sociedade conservadora da época não permitia que uma mulher tivesse um filho sem estar casada. Quando isso acontecia, havia duas saídas: ou as mães abandonavam a família e iam embora, ou abandonavam o recém nascido como aconteceu com Lima.
Hoje, depois de um século, ele ainda lembra de boa parte de sua vida. Embora sem a visão e sentindo o peso do tempo, sua consciência ainda é lúcida. Na companhia do sobrinho Domingos Tomacheski e da sobrinha Terezinha Ferreira, ele contou parte de sua vida.
A mata onde foi abandonado ficava próxima da casa dos avós de Terezinha. Na manhã seguinte, Arcival, ainda bebê, foi encontrado quando os homens da família Ferreira saíram para trabalhar. Estava com o cordão umbilical, e foi imediatamente adotado pela família.
Ele conta que levou a vida no trabalho braçal. Foi carpinteiro, agricultor, peão de estâncias e outras tantas. Nunca casou e não teve filhos. Nas horas de folga dedicava-se à música e ao violão que aprendeu tocar sozinho e com o qual animava os bailes nas redondezas onde morava.
VINDA PARA LARANJEIRAS
Há três anos Arcival reside na localidade de Campo Mendes, em Laranjeiras do Sul. Os parentes com quem morava do Rio Grande mudaram-se para o Mato Grosso. No entanto, acharam por bem e com o consentimento de Arcival, deixá-lo com os sobrinhos.
Segundo Domingos, apesar da idade avançada, Lima tem uma saúde de ferro. Ele não toma nenhum tipo de medicamento. Ele é como um cerne, parece que a cada dia fica mais forte. De vez em quando, toma um cachacinha com amargo. Queira nós chegar à idade dele com essa saúde, disse o sobrinho.
PANELA DE OURO
Como maior parte dos idosos, Arcival também conta histórias e causos de panelas de dinheiro. Segundo ele, enterrou junto com o pai duas panelas de ouro e pertences de valor no Rio Grande. As economias de quase uma vida, diz ele, perderam-se com o passar do tempo, já que depois de alguns anos, os objetos nunca mais foram encontrados.
NÃO ESTÁ NA HORA DE VIAJAR
Embora lúcido, Domingos contou que por diversas vezes deparam-se com Arcival conversando sozinho. Me arrepia só de falar. Ele fala como se alguém estivesse em sua frente. Sempre repete a mesma coisa: ‘calma companheiro, ainda não é a hora de viajar, conta.



