Educação: profissão de risco

Excesso de trabalho, indisciplina e muitos alunos em sala de aula. Estas
são apenas algumas das causas que acarretam problemas de saúde nos
professores da rede pública de ensino. Conforme o Núcleo Regional de
Educação (NRE), aproximadamente 150 mestres estão fora de sala de aula. Há
uma rotatividade muito grande. É difícil o Colégio que não têm professor
afastado, admite o coordenador de Recursos Humanos do NRE, Rogério Pavan.

Seja por motivos de licença (diversas), disposições funcionais ou
readaptação de função, segundo o NRE, o número de profissionais afastados
chega a 9% do total de 1700 nos 10 municípios da região. Já de acordo com a
presidente da APP Sindicato em Laranjeiras, Solange Pilati Ribeiro, cerca
de 30 a 40% dos profissionais da educação estão doentes. Temos recebido
muitos atestados devido elevado nível de estresse e doenças modernas, como
a síndrome de Burnout, já considerada uma doença típica da profissão.

Conforme o diretor do Colégio Gildo Aluísio Schuck, Marco Aurélio
Pinto, a situação tem se tornado um problema que está se agravando nos
últimos anos. Os professores trabalham excessivamente. Temos 16 horas em
sala e quatro horas atividade, mas não é suficiente para fazer tudo o que
precisa. Isso gera estresse e acarreta muitas doenças. Só neste ano, cinco
profissionais do Colégio foram afastados por problemas de saúde. Foi menos
que no ano passado, quando tivemos mais de dez professores, completa o
diretor auxiliar Ivanildo Josefi.
Uma das professoras que deixou a sala
de aula está há quatro meses no setor pedagógico. Em entrevista ao Jornal
Correio, ela pediu para não ser identificada e abriu o jogo: apesar da hora
atividade na escola, todo professor leva trabalho para casa. Isso tudo foi
agravando o cansaço e os problemas de saúde. Chegou a um ponto que perdi o
movimento de quatro dedos, conta a educadora, que após 26 anos na função
teve que passar por duas cirurgias de tendinite e lesão por esforços
repetitivos (LER).
Para outra professora, Roseli Correa dos Santos, da
Escola Érico Veríssimo, o que faltou foi instrução sobre os cuidados com a
voz. Há 18 anos em sala de aula nas disciplinas de Português e Inglês, ela
desenvolveu alergia respiratória por causa do giz e foi remanejada para o
setor de apoio pedagógico. Mas antes disso, teve que fazer tratamento com
fonoaudióloga para se recuperar. Se tivesse sido orientada, se a sala de
aula não fosse tão lotada e não houvesse sobrecarga de trabalho e
indisciplina, não teria chegado à doença, acredita.
Roseli ressalta
que todo o tratamento com a fonoaudióloga e mais tarde com psicóloga – ela
entrou em depressão – teve que sair do próprio bolso. O SAS não paga fono
nem psicóloga. Hoje aprendi que em primeiro lugar temos que cuidar da
própria saúde, porque para o Governo, a gente não passa de um número,
lamenta. Segundo profissionais da educação, o sistema de atendimento ao
usuário do governo do Paraná limita uma consulta por dia para cada
especialista. Às vezes demora dois meses para conseguir consulta. Isso é
muita humilhação, denuncia uma professora do Colégio Gildo.

Todos perdem
A diretora da Escola
Érico Veríssimo, Roselaine Marin da Silva, destaca que todos saem perdendo,
quando um professor precisa se afastar de suas atividades em sala de aula.
No lugar da professora Roseli, por exemplo, foram contratados cinco
professores: dois na disciplina de Língua Portuguesa e três na disciplina
de Inglês, informa.

Reclamações
constantes

Segundo o presidente da APP Sindicato, José Lemos, um
estudo da Universidade de Brasília (UnB) revelou dados alarmantes sobre o
Paraná. No retrato da escola, há a confirmação de que 62% dos professores
da rede estadual de ensino sofrem de algum tipo de problema psicológico,
diz Lemos.
As causas citadas por Lemos, que resultam no problema estão
diretamente ligadas às condições de trabalho e à remuneração precária dos
professores. Pior que a depressão provocada pelo mau comportamento da
classe, são as condições de trabalho precárias. As salas estão lotadas, às
vezes tendo que fazer turnos alternados, diz o sindicalista.

“Hoje aprendi que em
primeiro

lugar temos que cuidar da
própria saúde,

porque para o
Governo, a gente não passa de um número
“
professora Roseli Correa
dos Santos,
afastada de sala de
aula devido problemas por uso excessivo da voz

Profissão de
risco

Uma pesquisa feita pela APP Sindicato neste segundo
semestre só com professores e funcionários da ativa revela dados alarmantes
com relação à saúde do professor. No total, foram pesquisados 2400
educadores. Destes, 29,88% se ausentaram do trabalho por algum motivo de
saúde no 1º semestre de 2009.
Os dados da secretaria de Saúde e
Previdência da APP Sindicato também revelam que 66% dos professores
consultados adquiriu alguma doença em virtude do trabalho. As doenças que
mais acometeram estes 66% em virtude do trabalho, foram problemas
respiratórios (8%); problemas de coluna (17%); problema com voz (28%) e 30%
depressão. A partir da depressão, o profissional pode adquirir outra
doença. Isso é um dado alarmante, alerta o secretário de Saúde e
previdência da APP Sindicato Idemar Vanderlei Beki.
Outro dado apontado
na pesquisa é quantos atestados médicos de até três dias os entrevistados
apresentaram. Dos 29,88% que se ausentaram do trabalho, 17% apresentou um
atestado; 6% dois atestados e 3% apresentaram três atestados.
89% dos
profissionais da educação entrevistados pegaram licença médica de mais de
três dias: 60% tiveram licença de até 15 dias; 13% tiveram licença de 15 a
30 dias; 13% tiveram licença de 31 a 60 dias e 14% dos educadores ficaram
de licença mais de dois meses. Estamos levantando todos esses dados para
cobrar um melhor atendimento à saúde dos educadores, tanto do professor
quanto do funcionário. Investir na saúde do educador é mais barato do que
contratar outra pessoa para substituí-lo, concluiu Beki.