Preconceito. Esta é uma palavra que marca a vida de
milhares de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais em todo o
país. Para combater o preconceito nos serviços de saúde e na sociedade,
o Governo Federal lançou quarta-feira (28) uma campanha. O objetivo é
sensibilizar as pessoas contra o preconceito e a discriminação, além de
informar sobre as formas de prevenção da Aids.
Edenilson
Preste Mendes sabe muito bem o que é conviver com o preconceito. Já
sofri muito em Rio Bonito do Iguaçu. Principalmente no colégio, conta.
Mas hoje, tudo é diferente. Enfrentei muita coisa para chegar onde
estou hoje. Eu me assumi e falei o que sentia e o que sofria com certos
comentários. Desse dia em diante eu fui me libertando de mim mesmo,
conta.
A atitude de Edenilson é aprovada pela
coordenadora do programa de saúde da mulher em Laranjeiras do Sul, Ivone
Portela. O primeiro passo para fugir do preconceito é cada um se
assumir como é, porque o atendimento no setor de saúde é igual para
todos, garante.
Ivone ressalta que as pessoas
homossexuais que mais buscam atendimento são as soro-positivas. As
demais têm vergonha. As mais resistentes em procurar ajuda são as
lésbicas. Na sociedade, não é fácil aceitar relacionamentos de mulher
com mulher. O preconceito não vai deixar de existir nunca. Mas pode ser
amenizado a partir da atitude dos próprios homossexuais, acredita.
O secretário de Saúde de Laranjeiras do Sul, Valdemir
Scarpari, destaca que o atendimento no setor é feito sem discriminação,
contudo, são poucos os que procuram. Já tentamos fazer um trabalho de
conscientização em região próxima da BR, com acompanhamento de diversos
profissionais da saúde, mas eles correram, lamenta.
CIDADE
PEQUENA, PRECONCEITO MAIOR
Douglas*, que morou 16 anos
em Laranjeiras do Sul resolveu ir embora. Recebi proposta para
trabalhar e vim embora para Blumenau. Saí de Laranjeiras porque estava
cansado de ganhar pouco, conta ele.
Além do trabalho,
outra barreira foi encontrar apoio da família. Minha mãe me surrou com
um facão e me mandou para a rua. Muitos não entendem. Somos seres
normais, como qualquer pessoa, afirma. Mas um dia, ele pensa em voltar
para sua cidade. Estou trabalhando e guardando dinheiro. Vou montar um
danceteria em Laranjeiras do Sul, promete.
Show contra o preconceito
Edenilson morou em Rio Bonito do Iguaçu de 1998 até 2008.
Seus pais residiam no assentamento. Ele conta o preconceito que sofreu
por parte da sociedade e até dele mesmo. Foi uma luta muito grande
chegar onde estou hoje, conta.
Ele começou fazer a faculdade em Francisco Beltrão, no
ano de 2004. Ganhei uma bolsa integral pelo Movimento Sem Terra. Nessa
época eu não era assumido, revela. Foi na faculdade, que arrumou o
primeiro namorado. Isso ocorreu depois que teve uma oficina sobre
sexualidade, com a Izabel Grim.
Deste dia em diante, Edenilson,
ou Pricila Estefini, como preferir, mudou de atitude. Mas a família só
descobriu mais tarde, em 2007. Eu estava arrumando a mala para ir para
faculdade e deixei no computador a foto do meu namorado. Minha mãe
chegou e viu, lembra. Todos já sabiam, só a família que não. Ela ficou
parada na porta do quarto. Daí comecei a chorar e contei tudo para ela.
Pedi para não contar para meu pai, porque quando voltasse da faculdade
iria embora.
Mas a
reação da mãe foi inesperada. Ela me abraçou e disse que me amava do
jeito que eu era. Eu não ia deixar de ser filho por ser gay, relata.
Mas enquanto estava na faculdade, sua opção sexual foi revelada ao pai,
que ficou três dias sem voltar para casa. Quando voltou, perguntou para a
família se todos já sabiam. Diante da confirmação, deu ordens de que
não queria humilhações para o filho. Ele me olhou, deu um sorriso, me
abraçou e disse: não se preocupe. Você nunca deu problema em casa,
sempre estudou. A partir de então, ele grudou em mim e não deixava
ninguém falar mal. Super proteção, conta.
Assim Edenilson ganhou apoio da família. Após a morte
dos pais, venderam tudo o que tinham e foram morar em Marau/RS. Lá
conheci algumas travestis e como já era assumido, às vezes ia montado à
noite para festa GLS. Fui até em bailes gaúchos vestida de drag, conta.
Mas foi em
Curitiba, no ano passado, que ele fez seu primeiro show Drag queen
para amigos e senhoras de um curso de panificação. Já em uma noite
cultural, depois fui num curso em Faxinal do Céu, dei meu pulo a nível
estadual. Fiz um show para 600 professores. Após minha performance,
falei sobre o preconceito vivido por mim, contou. No decorrer da sua
vida, em vários espaços fez shows como Pricila Estefini. Às vezes loira,
às vezes morena, o discurso de Edenilson é sempre o mesmo: combate ao
preconceito.
CAMPANHA
A campanha “Sou Travesti. Tenho
Direito de Ser Quem Sou” foi criada pelas próprias travestis com o apoio
do Ministério da Saúde e das Secretaria Especial de Direitos Humanos.
Para o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, o sistema de saúde
precisa estar preparado para atender as demandas das travestis.
O material da campanha orienta sobre
os procedimentos adequados às pacientes. Constam informações sobre as
especificidades das travestis como a aplicação de silicone, o uso de
hormônios, a aparência física feminina, o uso do banheiro e a
identificação das situações de risco que podem levar à infecção pelo
HIV.



