Prefeitura de Pinhão cancela programação do aniversário do município após ações violentas de reintegração de posse
Pinhão completa 53 anos na sexta-feira (15) e a programação do aniversário do município foi cancelada na tarde desta segunda-feira, (04) em virtude das ações violentas de reintegração de posse, ocorrida na sexta-feira (1º) na comunidade de Alecrim.
A ação que desalojou mais de 22 famílias e comoveu todos os pinhãoenses, não poupou nem o posto de saúde e nem a igreja da comunidade. Por esse motivo a administração municipal entende que o momento é solidariedade e não de comemorações.
Meu sentimento é de sofrimento pelas pessoas que lutaram por vários anos para sobreviver da terra, ou seja, homens e mulheres construíram e conservaram uma comunidade que agora foi ao chão, disse o prefeito Odir Gotardo.
REINTEGRAÇÃO
A reintegração de posse aconteceu na sexta-feira (1º) onde duas comunidades rurais de mais de 25 anos de existência foram surpreendidas por um grande aparato policial no município de Pinhão. Aproximadamente 100 famílias foram expulsas de suas casas devido a uma intervenção federal autorizada pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ), atendendo pedido da indústria madeireira Zattar.
Segundo relatos dos moradores, a operação começou logo nas primeiras horas do dia. Os moradores foram expulsos de suas casas e na sequência as máquinas da empresa destruíram as residências, algumas delas de alvenaria. Escola, padaria comunitária e igreja também foram demolidas.
A prefeitura de Pinhão auxiliou no trabalho de remoção das famílias para outras localidades, porém a situação de moradia dos despejados segue indefinida.
CASO EMBLEMÁTICO
A questão agrária em Pinhão é uma das mais emblemáticas da luta pela terra no Paraná, tendo seus primórdios ainda no início do século 20, no conflito entre posseiros e empresas particulares, em especial a madeireira Zattar, que chegou na região na década de 40.
A ocupação da área pela empresa ocorreu em detrimento de famílias de pequenos agricultores que já habitavam as terras desde o Brasil imperial. Elas foram expulsas e assim a indústria constituiu um dos maiores complexos latifundiários do Paraná.
Estima-se que antes da chegada da empresa quase duas mil famílias de posseiros viviam em comunidades tradicionais, conhecidas como faxinais. A madeireira chegou a ocupar 80 mil hectares na região centro-sul do estado.
Já para os faxinalenses instalou-se uma luta desigual pela titularidade das terras. Atualmente são doze acampamentos sem terra em uma área total de 60 mil hectares e aproximadamente dois mil acampados. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) classifica a região como o terceiro maior polo de reforma agrária no Estado.
GOVERNO
De acordo com secretário de Segurança do Paraná, Wagner Mesquita, houve uma determinação da última instância da Justiça que manifestou nesse sentido o Superior Tribunal de Justiça, e então, houve uma ordem direta para a Secretaria de Segurança Pública com previsão de multa, inclusive imputando crime de responsabilidade ao governador caso não cumprisse para que fosse executada a ordem judicial. Não tivemos outra escolha e fizemos a operação da maneira mais adequada possível, conta Mesquita.
Ainda de acordo com ele, o planejamento operacional indicou a utilização de mais de 100 policias militares e no local, os relatórios apontaram que havia 13 famílias e cerca de 50 pessoas, e não houve confronto e registro de abuso, porém apreensão de quatro armas de fogo e uma pessoa foi presa por conta do ocorrido.
Mesquita explica que a destruição dos imóveis não partiu da atuação policial e não estava prevista a utilização de máquinas por conta da polícia. O que cabe à polícia é acompanhar o oficial de justiça na execução e efetuar medidas coercitivas, porém não houve a necessidade deste tipo de ação.



