Prisioneiras do tráfico

Das 23 mulheres que estão trancadas na cela da 2ª Subdivisão Policial, em Laranjeiras do Sul, 19 estão cumprindo pena por tráfico de drogas. Outras quatro estão presas acusadas de homicídio. A história de cada uma delas é diferente, única. Mas chega um momento em que todas se cruzam: elas foram usadas como ‘mulas’ para trazer droga do Paraguai.
Presas em Laranjeiras do Sul, terão que sentir aqui o rigor da lei para o crime. Por isso ficarão vários anos longe da família, filhos, muitas também do trabalho. Todo ano aumenta o número de mulheres envolvidas com o tráfico. Depende muito da safra no Paraguai, explica o delegado Adriano Chohfi.
Apenas seis prisioneiras são de Laranjeiras do Sul. As demais são de outros lugares: cinco de São Paulo, três de Cantagalo, uma do Mato Grosso, uma de Guarapuava, uma de Santa Helena, uma de Santa Catarina, uma de Palmital, duas argentinas e duas paraguaias.  
Na cela onde deveriam ficar apenas seis pessoas, as 23 mulheres dividem o mesmo espaço entre beliches, banheiro, um pequeno fogareiro e um minúsculo corredor para tomar sol e secar roupas. Na infelicidade atrás das grades, 14 delas encontraram no relacionamento amoroso a saída para suportar a solidão.
É através de uma pequena grade, no alto, que conheceram seus parceiros, também presos na cela dos homens do outro lado da parede. Quinta-feira é o único dia em que podem ficar juntos, durante o horário de visita. Um dos casais formados é Rosenilda da Cruz, 24 anos, e Cleiton Alves da Silva, 25. Ela está presa por tráfico e ele por latrocínio. Os dois começaram a trocar ‘pipas’ – como chamam as cartas – e dois meses depois que ela foi presa já estavam namorando. Quando sairmos daqui, se tudo der certo, pretendemos viver juntos, afirmam eles, que usam no dedo aliança de compromisso.
Jussara Regina de Souza, 31 anos, também tem o marido na cela ao lado. Ela ‘caiu’ há 20 dias, junto com ele, quando voltavam do Paraguai com outros dois casais. Formada em Análises Clínicas, ela atuava como técnica em biodiagnóstico em um hospital, durante a noite e em uma clínica durante o dia. De uma hora para outra, deixou de lado a carreira profissional e toda a vida que levava. Ele me convidou para comemorarmos meu aniversário em Foz, lembra Jussara, que ainda guarda as fotos do passeio às Cataratas do Iguaçu.
Para Sueli dos Santos, o que mais sente falta é dos filhos, que só vê nas quintas-feiras. Mas o namorado ajuda a enfrentar o momento. Conheci ele pela ‘ventana’. Quando sair, quero ficar com ele, afirma. Já a paraguaia Cristina Britez disse que cobrar uma explicação do noivo que a colocou nessa roubada. Não sei praticamente nada, defende-se ela.
Zélia Matias dos Santos está presa há um ano e 10 meses e não sabe quanto tempo vai ficar na cadeia. Ela não recebe visitas. O marido está preso, também por homicídio. Ela aproveitou a visita do Jornal Correio para pedir uma foto. Quer mandar ao marido. Me sinto muito sozinha, justifica.

A última prisioneira
Ivonete Correia é um caso à parte. Presa na última semana ela disse que levava três quilos de droga em sua terceira viagem. Ganharia R$ 1 mil, mas foi flagrada pela Polícia. Já esteve duas vezes presa em penitenciária e na sua ficha tem uma porção de registros: latrocínio, roubo à mão armada, tráfico e associação ao tráfico e homicídio.
Usuária de crack, ela tem o marido preso em Santa Catarina. Só estava fazendo isso para ficar bem, responde, quando questionada quando pretende parar com a prática de crimes. Já tentei, mas não tenho cabeça, confessa. Quando sair da cadeia pretende levar a vida normal, com o marido. Estou com ele há 15 anos.