Grislane C. Piovesan compartilha jornada de desenvolvimento da filha Helena

Mãe atípica relata o diagnóstico durante a pandemia, a busca por suporte e as conquistas diárias no desenvolvimento da filha com TEA

O mês de abril, marcado pela conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), propõe mais do que campanhas: convida à escuta. Por trás dos dados, estão famílias que vivenciam, diariamente, os desafios e as conquistas de uma realidade ainda cercada por desinformação e lacunas no atendimento.
O Jornal Correio do Povo do Paraná convidou a mãe atípica Grislane Civa Piovesan compartilha sua experiência com a filha Helena.
Diagnóstico e adaptação
O diagnóstico de Helena ocorreu em 2020, em meio à pandemia de Covid-19, um fator que intensificou ainda mais os desafios enfrentados pela família. Sem a possibilidade de iniciar
imediatamente as terapias recomendadas, os pais precisaram assumir, dentro de casa, o papel de mediadores do desenvolvimento da filha, buscando conhecimento por conta própria e estruturando
uma rotina de suporte adaptada à nova realidade.
“Foi um momento com seus próprios desafios. Precisamos nos adaptar, estudar e criar nossa própria rotina”, relembra Grislane. Apesar das dificuldades, ela destaca que a experiência anterior com o tratamento oncológico do outro filho, Rafael, contribuiu para uma compreensão mais ampla da situação.
“Já sabíamos que o autismo não é uma doença. Não encaramos com desespero, mas como
uma nova jornada de adaptação e aprendizado, focada em evitar o sofrimento da Helena”, afirma.
Desafios invisíveis
Entre os principais obstáculos enfrentados no dia a dia, Grislane aponta um aspecto pouco percebido por quem está fora dessa realidade: a necessidade constante de interpretação dos sinais da criança. A comunicação, muitas vezes não verbal, exige atenção integral e sensibilidade para compreender necessidades, emoções e reações. “O maior desafio é a leitura do dia da Helena. Entender o silêncio, interpretar uma birra, compreender o choro. É um exercício diário”, explica.
Segundo ela, esse processo demanda tempo, disponibilidade e, sobretudo, paciência. “É uma comunicação que vai além das palavras e exige presença plena”.
Falta de suporte
Embora reconheça avanços na conscientização e no acesso a serviços, Grislane avalia que o suporte oferecido ainda é insuficiente, especialmente no que diz respeito à qualificação profissional.
A carência de especialistas preparados para atender pessoas com autismo é, segundo ela, uma realidade que se estende tanto a cidades do interior quanto a grandes centros urbanos. “Existe algum suporte,
mas ainda não é o suficiente. Falta ampliar a rede de profissionais realmente especializados para garantir um atendimento adequado”, pontua.
Diante desse cenário, o apoio familiar se torna um elemento essencial na rotina. “Tenho o suporte da minha família, que entende, colabora e ajuda nos cuidados com a Helena. Isso faz toda a diferença”, destaca.
Conquistas diárias
Em meio aos desafios, cada avanço é celebrado. Para Grislane, a principal conquista da filha não está necessariamente em marcos de desenvolvimento, mas na saúde. “Mesmo com dificuldades como resistência cognitiva e restrição alimentar, ver a Helena saudável é nossa maior vitória”, afirma.
Segundo ela, esse aspecto representa a base que sustenta toda a caminhada da família. “É o que nos enche de força para continuar.”
Aceitação é base
Ao refletir sobre a jornada, Grislane direciona uma mensagem às mães que estão no início do processo: a importância da aceitação e da inclusão dentro do ambiente familiar.

Aceitar minha filha como ela é e aprender a entender o mundo dela todos os dias é o que nos mantém firmes nessa caminhada.


Grislane Civa Piovesan
Advogada e mãe atípica


Para ela, é nesse contexto de acolhimento que a criança encontra condições para se desenvolver
e a família, força para seguir. O Abril Azul reforça a necessidade de ampliar o debate sobre o autismo, mas, sobretudo, de transformar conscientização em ação.
O relato de Grislane evidencia que, apesar dos avanços, ainda há caminhos a serem percorridos, especialmente na garantia de suporte adequado e na construção de uma sociedade mais empática e inclusiva. Mais do que entender o autismo, é preciso ouvir quem vive essa realidade todos os dias.