O dilema do prato: por que comer bem ainda desafia rotinas

Em entrevista exclusiva, nutricionista Simone Strack aponta erros comuns e caminhos para o equilíbrio

Celebrado na última terça-feira, 31 de março, o Dia Mundial da Saúde e Nutrição propõe mais do que conscientização: é um chamado à revisão de hábitos em um cenário marcado por excesso de informações, dietas da moda e promessas de resultados rápidos. Em meio a esse ruído, comer bem se tornou, nesse cenário, mais difícil, e, muitas vezes, mais confuso.

Honre sua história, não se compare e assuma a responsabilidade pela sua saúde”.

Simone Strack

Nutricionista

Em entrevista exclusiva, a nutricionista Simone Strack, formada pela Uningá e com pós-graduação em Nutrição Esportiva e Hipertrofia pela Uniguaçu, além de especializações em Nutrição Avançada e Nutrição Comportamental e Clínica, defende uma abordagem baseada em ciência, individualidade e consistência. Ela atua com atendimentos presenciais e online, integrando saúde e comportamento alimentar.

O peso dos mitos
Para Simone, o principal entrave ainda está na forma como a alimentação saudável é compreendida. “O maior erro é reduzir alimentação saudável a regras rígidas ou ‘dietas perfeitas’. Ainda se acredita que é preciso cortar glúten, lactose ou carboidratos sem necessidade, seguir dietas prontas e sem individualidade”, afirma. Segundo ela, esse comportamento pode trazer consequências sérias: “Esses erros podem causar deficiências nutricionais, prejudicar a saúde metabólica e até gerar compulsões alimentares”.
Outro mito persistente é o custo elevado. “O que costuma encarecer não é o padrão alimentar saudável, mas o consumo frequente de produtos industrializados ‘fit’. O marketing induz o consumidor a acreditar que são necessários, quando, na prática, não são”, explica. Para a nutricionista, o básico ainda funciona: “Alimentação saudável pode ser simples e acessível, com variedade e aproveitamento de alimentos da estação”.
Ela destaca ainda que existe um caminho claro e aplicável à maioria das pessoas. “A base deve ser composta por alimentos in natura ou minimamente processados, como arroz, feijão, frutas, legumes e proteínas. Esse modelo facilita a adesão e torna a alimentação mais prática e sustentável”.

Corpo, mente e rotina
A alimentação vai além da nutrição física e impacta diretamente o bem-estar emocional. “Os nutrientes participam da síntese de neurotransmissores, como serotonina e dopamina, que regulam humor, motivação e disposição. Uma dieta equilibrada mantém níveis de energia mais estáveis ao longo do dia”, explica. Em contrapartida, alerta: “Alimentos ultraprocessados podem gerar oscilações de glicose, aumentando o cansaço, a irritabilidade e até o estado inflamatório do organismo”.
Diante da rotina acelerada, Simone aponta o planejamento como peça-chave. “Organizar as refeições da semana, criar listas de compras e deixar preparações prontas são estratégias fundamentais. O mais importante é começar aos poucos, até que isso se torne um hábito”, orienta.

Muito além da balança
Ao analisar o avanço da obesidade, a especialista reforça a complexidade do tema. “A obesidade é uma condição multifatorial. Envolve fatores biológicos, hormonais, comportamentais e emocionais, como estresse, ansiedade, sono inadequado e sedentarismo”, afirma. O ambiente moderno também pesa: “A facilidade de acesso a ultraprocessados e a falta de tempo para preparar refeições contribuem diretamente para esse cenário”.
Ela também faz um alerta sobre dietas restritivas. “Apesar de promoverem perda de peso rápida, têm baixa eficácia a longo prazo. O corpo passa por adaptações que favorecem o reganho de peso, além de aumentar o risco de compulsão alimentar”, diz. Para ela, o caminho mais seguro é outro: “A reeducação alimentar e a mudança de hábitos são fundamentais para resultados duradouros”.

Informação em excesso, resultado em dúvida
Em um ambiente dominado por redes sociais, a informação nem sempre é aliada. “O excesso de conteúdos, muitas vezes sem embasamento, pode confundir e gerar culpa. Existe também o terrorismo alimentar, que rotula alimentos como ‘vilões’ e prejudica a relação com a comida”, alerta.
Para Simone, o equilíbrio segue como princípio central. “Saúde não se constrói com extremos, mas com consistência. É preciso desenvolver senso crítico e buscar orientação de profissionais qualificados”.
Neste Dia Mundial da Saúde e Nutrição, a mensagem é direta e prática. “Não seja radical e não busque perfeição. Pequenas mudanças consistentes fazem diferença ao longo do tempo. Honre sua história, não se compare e assuma a responsabilidade pela sua saúde”, conclui.