Tem gente que possui em casa uma toalha bonita demais para ser usada, uma louça que aguarda há quinze anos uma ocasião suficientemente importante e uma roupa especial que, aparentemente, está esperando um convite da família real.
Também existe aquele perfume caro que precisa ser economizado, o vinho que nunca encontra o jantar à altura e o jogo de copos que permanece intacto no armário enquanto seus donos seguem tomando água nos mesmos três copos sobreviventes de um conjunto comprado em 2017.
É curioso como fazemos isso. Guardamos as coisas boas. E não apenas as coisas.
Guardamos viagens, planos, vontades e experiências para quando houver mais tempo, mais dinheiro, menos problemas ou uma combinação misteriosa de circunstâncias que finalmente autorize a vida a começar. “Quando as coisas se acalmarem.” “Quando eu terminar isso.” “Quando estiver mais organizado.” “Quando chegar o momento certo.”
O problema é que a vida parece ter uma certa dificuldade em colaborar com esse planejamento. Você resolve um problema e aparece outro. Termina uma tarefa e surgem três. Organiza uma área da vida e descobre, com certo desgosto, que as outras aparentemente não receberam o memorando.
E assim vamos adiando. Não necessariamente grandes sonhos. Às vezes adiamos coisas pequenas: um almoço com alguém de quem gostamos, uma caminhada sem pressa, usar algo bonito numa quinta-feira absolutamente comum, abrir o vinho, fazer aquela viagem curta ou começar algo que temos vontade de aprender.
Como se a vida real fosse apenas uma sala de espera para uma versão melhor da vida que ainda vai chegar.
Talvez isso aconteça porque temos uma estranha relação com o tempo. Sabemos racionalmente que ele passa, mas vivemos como se tivéssemos recebido um estoque praticamente ilimitado. Depois eu faço. Outro dia eu vou. Mais para frente eu começo.
E o “mais para frente” é um lugar curioso. Cabe tudo lá: projetos, conversas, viagens, mudanças, abraços, decisões. O problema é que ninguém sabe exatamente onde fica.
Isso não significa viver de forma irresponsável, abandonar compromissos ou gastar tudo o que temos porque “a vida é curta”. Entre guardar o aparelho de jantar por trinta anos e vender a casa para conhecer as Maldivas existe, felizmente, uma quantidade razoável de possibilidades.
A questão é outra. É perceber quantas vezes deixamos de viver algo bom não porque exista um impedimento real, mas porque criamos a ideia de que aquele momento ainda não é especial o suficiente.
E talvez seja aí que esteja uma das grandes ironias da vida.
Esperamos pelas ocasiões especiais sem perceber que quase todas elas só se tornam especiais depois que acontecem. Um jantar comum vira uma lembrança. Uma conversa inesperada muda alguma coisa dentro de nós. Uma tarde qualquer acaba sendo uma das últimas que passamos ao lado de alguém.
A gente nunca sabe.
Talvez por isso valha a pena olhar com um pouco mais de atenção para tudo aquilo que estamos guardando. Não apenas dentro dos armários, mas dentro da vida.
Porque pode ser que a ocasião especial que você está esperando não chegue acompanhada de um convite, uma comemoração ou uma data marcada no calendário.
Talvez ela já tenha chegado.
E, por alguma razão, veio disfarçada de uma quinta-feira qualquer.



