Adaptando Gil Vicente
Estou adaptando para meus alunos de teatro o texto O Auto da Barca do Inferno, do dramaturgo português Gil Vicente (1465-1536).
É muito interessante, mesmo depois de mais de 400 anos, o quanto o texto permaneceu atual. Li com meus alunos o texto original, com todos os arcaísmos e expressões idiomáticas da época do autor. Rimos como se fosse uma comédia de hoje em dia.
É claro que na adaptação precisarei alterar algumas palavras e expressões. É possível que algumas pessoas tenham dificuldade em associar uma profissão como Onzeneiro, um dos personagens da peça, como agiota, o que de fato o personagem é. Ou seja, algumas atualizações linguísticas acabam sendo necessárias para o melhor entendimento do público.
O que não dá para alterar é a fina ironia do autor, que já no século XVI assinalava hipocrisias que persistem até hoje. Talvez daí a flagrante atualidade do texto, as nuances de humor ácido que ainda fazem rir séculos depois de ter sido escrito.
No texto, o embate entre um diabo e um anjo sobre quem vão levar para o inferno e para o paraíso, é o mote do conflito. Agiotas, falsos crentes, juízes corruptos, pequenos comerciantes desonestos, religiosos dados à luxúria e ao roubo, entre outros personagens, obviamente, querem o seu lugar no céu.
Escancarar a hipocrisia dos ditos homens de bem da época é, na minha opinião, o que levou o texto a permanecer tão atual. Magistrados que entram em conluio com advogados, religiosos que enganam os crentes, crentes capazes de crueldades abissais, ricaços e herdeiros que exploram seus trabalhadores, tudo isso, todos esses personagens, são do século XVI, constam como habitantes da imaginação teatral de Gil Vicente.
A identificação imediata com dramas e personagens reais da atualidade inicialmente provoca riso, mas também preocupação.
Gil Vicente, morto em 1536, permanece mais atual do que nunca.



