Contar histórias também é preservar quem somos
Para Daiana Zocche, oralidade aproxima gerações e mantém vivas manifestações que ajudam a formar a identidade cultural brasileira
O folclore brasileiro reúne lendas, personagens, costumes, brincadeiras, cantigas, crenças e saberes que atravessam gerações. Celebrado em 22 de agosto, o Dia do Folclore reforça a importância de preservar essas manifestações que fazem parte da cultura e da memória popular do país.
Para a contadora de histórias Daiana Zocche, manter essas narrativas em circulação é também uma forma de preservar a identidade cultural. A relação dela com as histórias começou há cerca de oito anos, ainda durante a faculdade, e ganhou espaço na vida profissional e pessoal.
Uma trajetória marcada pelas histórias
Daiana atua na área da educação há 12 anos e conta que sempre teve uma relação próxima com livros e histórias. O interesse pela contação surgiu durante a faculdade e foi se fortalecendo com o tempo.
“Foi através das histórias que descobri que elas podem ser muito mais do que palavras registradas em um livro: podem despertar sentimentos, transmitir valores, estimular a imaginação, provocar reflexões e criar memórias que permanecem para toda a vida”, afirma.
A atividade também provocou mudanças pessoais. “A contação de histórias também me transformou. Tornou-me uma pessoa mais sensível, criativa e atenta à beleza dos pequenos momentos”, diz.
Hoje, segundo ela, contar histórias ultrapassa o campo profissional. “É uma forma de conectar pessoas, preservar memórias, despertar sonhos e deixar um pouquinho de mim em cada história que tenho a oportunidade de contar.”
Folclore como parte da identidade
Na visão de Daiana, o folclore representa a riqueza das raízes culturais brasileiras e reúne saberes, costumes, crenças, brincadeiras e tradições.
“As histórias populares tiveram uma importância muito grande na minha trajetória, como contadora de histórias, porque me ensinaram que contar histórias é também preservar memórias”, explica.
Ela destaca ainda o contato das crianças com essas narrativas. “Por meio delas, posso aproximar as crianças da cultura popular de uma maneira leve, divertida e significativa, despertando a curiosidade, a imaginação e o gosto pela leitura.”
Entre as lendas brasileiras, a Cuca é uma das personagens que mais chama a atenção da contadora.
“Talvez pelo seu jeito misterioso, assustador e, ao mesmo tempo, tão presente no imaginário das crianças”, conta.
Para ela, a personagem representa a capacidade que o folclore tem de continuar despertando a imaginação mesmo depois de passar por várias gerações.
“Essa mistura de fantasia, mistério e tradição que faz da Cuca uma personagem tão especial para mim.”
A importância de manter as histórias vivas
Para Daiana, preservar as manifestações do folclore também significa manter uma ligação com as pessoas que vieram antes e transmitir esse conhecimento às novas gerações.
“Manter vivas as histórias e tradições do folclore é preservar a nossa identidade, a nossa cultura e a memória das pessoas que vieram antes de nós”, afirma.
Segundo ela, o contato com essas narrativas pode ensinar e, ao mesmo tempo, despertar a imaginação.
“Quando contamos essas histórias para as crianças e os jovens, estamos proporcionando muito mais do que entretenimento: estamos ensinando valores, despertando a imaginação e criando uma conexão com as nossas raízes.”
A contação oral tem, nesse processo, um papel importante. Para Daiana, ouvir uma história diretamente de quem a conta acrescenta elementos que não estão apenas no texto.
“Não é apenas o conteúdo da história que chega até quem escuta, mas também a emoção, a entonação da voz, os gestos, as expressões e o jeito único de quem está contando.”
Ela resume a experiência como um encontro entre quem narra e quem ouve. “Para mim, contar uma história de forma oral é criar um encontro. É olhar nos olhos, despertar a imaginação de quem escuta e permitir que cada pessoa construa suas próprias imagens e sentimentos.”
De geração em geração
Para quem deseja conhecer melhor o folclore brasileiro, Daiana recomenda começar pelas lendas conhecidas, como Cuca, Saci-Pererê, Curupira, Iara, Boto-cor-de-rosa, Lobisomem, Mula sem cabeça e Boitatá.
Ela também sugere conhecer festas, brincadeiras, cantigas, parlendas, adivinhas, danças e costumes de diferentes regiões do país.
“Eu recomendo as histórias e lendas que despertam a curiosidade e a imaginação, porque acredito que é através do encantamento que nasce o interesse em conhecer mais.”
A contadora também destaca a importância de buscar essas histórias com familiares e pessoas mais velhas.
“Conversar com avós, familiares, professores e pessoas mais velhas da comunidade pode revelar versões, lembranças e detalhes que muitas vezes não encontramos nos livros ou na internet”, diz.
Para Zocche, preservar o folclore depende da continuidade dessa troca. “Acredito que conhecer o folclore brasileiro é também conhecer um pouco de quem somos. Por isso, mais do que decorar personagens e lendas, é importante ouvir, contar, brincar, cantar e manter essas tradições vivas, passando-as de uma geração para outra,” conclui.



