O olhar de quem enxerga na natureza os sinais do nosso futuro
Em entrevista, Diogo Siqueira revela sua trajetória e os estudos sobre biodiversidade e impactos ambientais na região
Observar a natureza foi o primeiro passo para Diogo José Siqueira escolher a Biologia como profissão. Laranjeirense há quase 14 anos, ele chegou ao município para trabalhar nos laboratórios da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e acabou se estabelecendo na cidade. Em entrevista exclusiva ao Jornal Correio do Povo do Paraná, o biólogo relembra sua trajetória, fala sobre a profissão e destaca os desafios ambientais de Laranjeiras do Sul.
Formado em Ciências Biológicas – Licenciatura em 2009, Diogo é especialista em Educação, mestre em Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentável pela UFFS e doutorando em Engenharia e Tecnologia Ambiental pela UFPR/Unioeste. Em 2026, concluiu também a graduação em Letras – Português/Inglês. Já foi professor no Colégio Reference e é criador de abelhas sem ferrão.
O interesse pelos animais, pelas cores e formas das flores e, especialmente, pelos seres marinhos despertou sua curiosidade. “A Biologia Marinha foi fundamental para eu decidir seguir nesta profissão. A vida me trouxe para outros caminhos, mas aquela paixão persiste me motivando”, conta.
O biólogo busca reconectar a humanidade com a natureza.
Diogo José Siqueira
Uma profissão além do que se imagina
Para Diogo, ser biólogo significa compreender a vida em sua complexidade e a relação entre os seres vivos e o ambiente. “Ser biólogo é buscar a compreensão sobre a dinâmica da vida em todos os seus aspectos”, define. Segundo ele, esse conhecimento permite reconhecer o ser humano como parte da natureza e buscar formas mais sustentáveis de utilização dos recursos naturais.
A profissão também oferece possibilidades que ainda são pouco conhecidas. Além da docência, da genética e do resgate de animais, biólogos podem atuar em análises clínicas, prevenção e controle de epidemias, perícia criminal e judicial, Marinha, sustentabilidade empresarial e desenvolvimento de produtos de origem vegetal e animal.
Em Laranjeiras, Diogo aponta a arborização urbana como uma área que poderia receber projetos específicos. “Biólogos poderiam desenvolver projetos para melhorar as condições da arborização urbana, que é um problema enfrentado pelo município”, afirma.
Entre laboratórios, aulas e pesquisas
Na UFFS, Diogo atua como técnico de laboratórios. O trabalho inclui o preparo de aulas práticas, soluções e reagentes, manutenção e utilização de equipamentos e apoio aos docentes. Ele também participa de aulas de campo e projetos de ensino, pesquisa e extensão, além de atividades administrativas.
Quando necessário, atua na coleta de plantas, animais e amostras de água, além de resgatar, identificar e realizar a soltura de animais encontrados na universidade.
A pesquisa também leva o biólogo para diferentes pontos da região. Na Estação Ecológica Municipal Paulo Pinto de Oliveira, em Porto Barreiro, um levantamento biótico realizado pela área de Biologia identificou espécies de aves, abelhas nativas e invertebrados aquáticos.
Atualmente, Diogo desenvolve sua pesquisa de doutorado em quatro pontos de Laranjeiras e no Parque Natural Municipal Prof. Saldino Léo Wobeto, em Porto Barreiro. O estudo investiga a presença de anuros, como sapos, e relaciona sua ocorrência ao nível de impacto ambiental de cada ambiente.
“Este tipo de pesquisa abre portas para falarmos sobre a qualidade da água, da arborização, do manejo de nossas espécies e da qualidade ambiental como um todo”, explica. Para ele, a relação é direta: “Se está ruim para animais e plantas, também será ruim para nós humanos”.
Vegetação e recursos naturais preocupam
Entre os desafios ambientais de Laranjeiras, Diogo chama atenção para a pouca cobertura vegetal no entorno de rios e lagos. “Embora alguns municípios tenham áreas de reserva natural, Laranjeiras parece particularmente carente nesta área”, afirma.
A arborização urbana é outro ponto destacado. No Centro, árvores podem afetar calçadas e tubulações e, em alguns casos, a população opta pela retirada em vez da substituição por espécies mais adequadas. Segundo Diogo, estudos recentes encontraram diferenças de até 7°C entre locais arborizados e não arborizados. “Na sombra, 20°C, sob o sol, 27°C. É muito perceptível”, relata.
O manejo de rios e lagos, o despejo de lixo e esgoto e a movimentação constante de solo em encostas também estão entre as preocupações. Para o biólogo, essas intervenções podem contribuir para deslizamentos graves, como os já registrados no município.
Ciência e sociedade
Diogo entende que o trabalho do biólogo também tem a função de aproximar a sociedade da natureza. “O biólogo busca reconectar a humanidade com a natureza, através de seus estudos, demonstrando onde nossa prática nos afasta dela, e mostrando caminhos para melhorar essa relação”, afirma.
Essa atuação pode aparecer na redução da poluição, em novas práticas de manejo na agricultura e nos jardins, na mobilidade urbana, na saúde, em projetos de sustentabilidade empresarial e em áreas periciais, auxiliando investigações e decisões judiciais.
No Dia do Biólogo, celebrado em 3 de setembro, Diogo resume sua visão sobre a profissão e o futuro. “As áreas de atuação são várias, o destino é um só”, afirma. Para ele, a Biologia deve buscar “o equilíbrio entre nós e a natureza”, utilizando os recursos naturais de forma responsável e garantindo um futuro saudável, economicamente viável e socialmente justo, sem comprometer a capacidade das próximas gerações de suprirem suas próprias necessidades.



