O Ricardo III nosso de cada dia

Quantas vezes, no cotidiano das semanas, nos deparamos com alguém que distorce nossas palavras para conseguir algum objetivo ou, simplesmente, pelo prazer da maledicência? Falar pelas costas, fazer ilações e interpretações canhestras que não raro revelam interesses ocultos, já aconteceu com vocês?

Acredito, por experiência compartilhada, que essas situações não são nada raras. Pelo contrário, são uma constante na história da humanidade. Tanto que o tema é bastante recorrente na literatura e nas artes. Há um personagem em uma das peças mais famosas escritas por William Shakespeare que parece se encaixar perfeitamente nas ações acima descritas: Iago, o antagonista de Otelo, na tragédia homônima.

No texto, Iago distorce fatos e faz Otelo acreditar erroneamente que sua esposa o está traindo, provocando a morte de ambos. Tudo por poder. Do mesmo modo, outro personagem singular na obra shakespeariana, com as mesmas artimanhas calcadas na mentira e na sede por poder é Ricardo III. O protagonista do texto, que dá nome à peça, promove intrigas, arma conluios, faz acusações falsas, assassina e rouba em nome de suas ambições.

A mola que impulsiona os crimes dos dois vilões tem um início muito claro, a mentira difundida por meio da fofoca. Não há como dissociar as conclusões trágicas dos dois textos de seus inícios repletos de enganos forjados. É interessante pensar como esses textos sobreviveram por séculos mantendo uma atualidade acachapante.

As intrigas de poder, as mentiras deslavadas, a fofoca deliberada, os enganos em massa parecem ser uma constante indissociável do comportamento humano. É de se admirar que tenhamos sobrevivido tanto tempo como espécie apresentando tão contínua falta de caráter. Pelo menos conseguimos produzir um Shakespeare para cantar nossas desventuras.