Clínica Integrare completa um ano com foco em atendimento e acolhimento

Psicólogo Rafael Farias fala sobre a criação, o uso de terapias baseadas em evidências e os avanços de pacientes e famílias

A Clínica Integrare, de Laranjeiras do Sul, completa um ano de atuação com atendimento psicológico, terapias comportamentais e acompanhamento de crianças, adolescentes e adultos. À frente do trabalho está o psicólogo Rafael Farias, que também atua como professor convidado da UFFS, no curso de Licenciatura em Educação Especial e Inclusiva e tem formação em diferentes áreas ligadas à Psicologia e à Educação Especial.

Em entrevista ao Jornal Correio do Povo, Rafael conta como chegou à Psicologia, fala sobre a criação da clínica, o uso da Análise do Comportamento Aplicada (ABA) e os resultados observados ao longo do primeiro ano de atendimento.

Não existe fórmula mágica. Existe acompanhamento, constância e pequenos avanços que vão se somando.

Rafael Farias

“A Psicologia me atravessou”

Jornal Correio do Povo: Rafael, o que fez você escolher a Psicologia como profissão e se apaixonar por essa área de atuação?

Rafael Farias: Na verdade, não fui eu que escolhi a Psicologia. Ela me atravessou. Hoje, não me vejo fazendo outra coisa a não ser ajudar pessoas a se reencontrarem no próprio mundo. Ajudar alguém a reorganizar a mente, os relacionamentos e a forma de lidar com a ansiedade, a depressão e tantas outras dores que, muitas vezes, ficam escondidas no dia a dia.

Com o tempo, descobri que a Psicologia podia ser muito concreta. Era possível observar, medir, planejar e ver uma criança aprender algo que ninguém imaginava que ela conseguiria. Foi aí que me apaixonei de vez.

Depois vieram o mestrado em Educação pela Unicentro, as especializações em neuropsicologia, psicopedagogia e neuropsicopedagogia, além das formações em ABA, VB-MAPP e PECS. Hoje, também dou aula no curso de Educação Especial da UFFS, em Laranjeiras do Sul, e sigo estudando. Estudar nunca foi um título para pendurar na parede. É o que me permite olhar para cada família e dizer que o que estamos fazendo tem base.

Um lugar para integrar família, escola e terapia

Jornal Correio do Povo: Como nasceu a ideia de transformar esse trabalho na Clínica Integrare? O que vocês sonhavam quando abriram a clínica?

Rafael Farias: Nasceu de uma cena que se repetia muito. Uma mãe recebia o diagnóstico do filho e depois precisava correr de cidade em cidade atrás de avaliação, terapia e alguém que explicasse o que fazer em casa. Cansada, com culpa e sem saber se estava fazendo o certo.

A gente sonhava com um lugar aqui mesmo, em Laranjeiras do Sul, onde essa família fosse recebida com calma e encontrasse avaliação, terapia e orientação em um só lugar, com um plano que conversasse com a casa e com a escola. O nome Integrare vem disso: integrar a pessoa, a família, a escola e a terapia.

Jornal Correio do Povo: Na prática, o que muda na vida de uma pessoa quando ela começa um acompanhamento psicológico adequado à sua necessidade?

Rafael Farias: Muda o dia a dia, que é onde a vida acontece. É a criança que antes só chorava e agora consegue pedir água. É o adolescente que volta a ter vontade de ir para a escola. É a família que consegue ir ao mercado sem medo de uma crise ou que dorme melhor porque entendeu o que estava acontecendo.

Não existe fórmula mágica nem prazo prometido. Existe acompanhamento, constância e pequenos avanços que vão se somando. Isso também muda muito para os pais. Quando eles entendem o motivo de um comportamento, a culpa diminui e a relação com o filho fica mais leve.

ABA e o acompanhamento além do consultório

Jornal Correio do Povo: A Integrare trabalha também com terapia comportamental e ABA. O que essas abordagens representam no trabalho de vocês?

Rafael Farias: A ABA é uma ciência que estuda como aprendemos e por que os comportamentos acontecem. Ela é hoje uma das abordagens com mais evidência científica para o autismo. Na prática, observamos a criança, identificamos o que ela já sabe, o que a motiva e o que dificulta seu aprendizado. A partir disso, ensinamos habilidades de forma organizada e, muitas vezes, brincando.

Trabalhamos comunicação, autonomia, interação com outras crianças e formas de lidar com a frustração. Tudo é registrado, para que a família possa acompanhar o progresso com base em dados, e não apenas na impressão de quem atende.

Também uso recursos da terapia cognitivo-comportamental e da terapia de aceitação e compromisso com adolescentes e adultos, principalmente quando a ansiedade pesa.

O ponto mais importante é que a família participa. Uma hora de terapia por semana não muda uma vida sozinha. O que muda é o que acontece em casa e na escola nas outras horas.

Pequenas conquistas que fazem diferença

Jornal Correio do Povo: Ao olhar para esse primeiro ano, o que mais deixa você orgulhoso do trabalho construído?

Rafael Farias: As pequenas grandes conquistas. Ver crianças e adolescentes que batiam, quebravam objetos em casa e viviam em crise diminuírem esses comportamentos e encontrarem outras formas de pedir o que precisam. Ver uma criança conquistar o desfralde por meio do treino de atividades de vida diária, usando a troca de figuras do PECS. E ver crianças que não falavam nenhuma palavra hoje conversando normalmente.

Uma história me marcou muito. Recebi um menino de apenas dois anos que não falava nenhuma palavra e era muito agressivo, chegando a bater nos pais. O medo deles era um só, e eu lembro bem da pergunta: “Será que o meu filho vai se desenvolver?”.

Fizemos atendimentos semanais, com um programa de ensino específico e padronizado, e os pais participaram de cada etapa. Aos poucos, ele foi se desenvolvendo, e aquele medo deu lugar a outras conversas. Esse é o tipo de coisa que não cabe em um relatório.

Também me orgulho de termos trazido para Laranjeiras do Sul um atendimento que muita gente precisava buscar fora. E da confiança das famílias, que não é algo que se pede. Se constrói dia após dia.

Sigilo e proteção dos pacientes

Jornal Correio do Povo: Para encerrar, que mensagem você gostaria de deixar para as famílias que já passaram pela Integrare e para aquelas que ainda procuram ajuda?

Rafael Farias: Para quem já caminhou com a gente, obrigado. Cada família nos ensinou alguma coisa e faz parte do que a Integrare é hoje.

Quero deixar uma coisa muito clara: aqui, a história de cada paciente pertence a ele e à sua família. Você não vai ver o rosto de uma criança nossa em rede social, nem um caso contado de um jeito que permita saber de quem se trata. O sigilo é um dever ético da Psicologia, mas, para mim, é antes de tudo uma questão de respeito. Quem confia a nós o que tem de mais precioso precisa ter a certeza de que essa confiança está guardada.

Por isso, a Integrare foi pensada para ser um lugar seguro. Os atendimentos de crianças e adolescentes acontecem em ambiente monitorado por câmera, com o conhecimento dos responsáveis. As imagens existem para proteger o paciente, a família e o próprio terapeuta, e não para serem mostradas. É transparência para quem confia e privacidade para quem é cuidado.

Para quem ainda está procurando ajuda, eu queria dizer que procurar ajuda não é sinal de fracasso. É sinal de cuidado. Ninguém precisa ter todas as respostas sozinho, e nenhuma dúvida é pequena demais. Se algo no desenvolvimento do seu filho, ou em você mesmo, está preocupando, venha conversar. Aqui você vai ser ouvido sem julgamento e protegido com seriedade.

Um ano de trabalho

Ao completar o primeiro ano, a Integrare chega a uma etapa marcada pela ampliação dos atendimentos e pelo acompanhamento de famílias que buscam apoio psicológico e terapêutico em Laranjeiras do Sul. Para Rafael, os resultados são medidos menos por grandes mudanças imediatas e mais pela soma de avanços que transformam a rotina dos pacientes e de suas famílias.