Lalaco, Rinaldi, Iguaçu e Bavaresco explicam alta dos combustíveis
O aumento no preço dos combustíveis voltou a pressionar consumidores e o setor de revenda no Brasil. A alta recente está ligada a fatores externos, como a escalada do conflito no Oriente Médio, e a questões de oferta, especialmente no diesel, que depende parcialmente de importações.
O barril do petróleo Brent, referência internacional, saiu de US$ 82,50 em 27 de fevereiro para US$ 115 em menos de um mês, uma alta de 39,4%. O movimento elevou os custos ao longo da cadeia, com impacto direto nas distribuidoras e reflexos nos preços nas bombas.
Pressão nos custos e nas margens
Segundo o proprietário dos Postos Rinaldi, Marcos Rinaldi, o cenário afeta diretamente a operação da revenda. “Os aumentos nos preços dos combustíveis impactam negativamente a operação de revenda. O negócio depende do volume de vendas para gerar receita e cobrir as despesas operacionais, que incluem altos custos, taxas, impostos elevados, pagamento em dia da folha de pagamento, encargos trabalhistas e, em resumo, todas as obrigações para manter a operação funcionando de forma eficiente”, afirma.
Ele explica que, desde o início do conflito, o diesel teve aumento de mais de 15 centavos por litro no custo, repassado ao mercado. Apesar da alta de 39,4% no petróleo, o repasse das distribuidoras para a revenda foi de cerca de 29%. “Nem todo esse aumento foi repassado ao consumidor final, pois a concorrência e as dinâmicas de mercado influenciam os preços”, diz. No caso da gasolina, o repasse foi menor, em torno de 4%.
Rinaldi destaca que a concorrência impede o repasse integral. “A dificuldade em repassar integralmente os aumentos se deve à concorrência, que pode ter custos diferentes dependendo do tamanho da operação, número de funcionários e outras condições”.
De acordo com ele com o aumento nas bombas, o consumo tende a cair. “Com o aumento dos preços, o poder de compra do consumidor não acompanha, resultando na diminuição da quantidade de litros abastecidos”, afirma. Segundo ele, isso reduz a lucratividade enquanto os custos permanecem altos.
Oferta menor e impacto da guerra
Para o empresário Said Hamud, dos Postos Iguaçu, a principal causa da alta recente é a redução na oferta, sobretudo do diesel. “Essa elevação de preço é decorrente muito da falta de importação devido à guerra. Como diminuiu a importação, as distribuidoras estão tendo menos oferta de produto, principalmente o diesel”, afirma.
Ele explica que o Brasil importa cerca de 30% do diesel consumido, o que torna o mercado sensível a interrupções externas. “As pessoas ficam com medo de que possa faltar combustível. Alguns postos já estão com alguma falta, mas são aqueles que não têm contrato com as bandeiras”, diz.
Segundo Hamud, postos que têm contratos com distribuidoras têm maior garantia de abastecimento. “As companhias têm compromisso com os seus postos. Eu, por exemplo, aqui não tive ainda falta de produto por eu ter um contrato com a companhia”, afirma.
Ele reforça que os preços seguem a lógica de mercado. “Em relação ao preço, é a lei da oferta e da procura. Como está tendo esse princípio de falta, acaba ocasionando a alta. As distribuidoras estão repassando. O posteiro, na verdade, só repassa a margem de lucro dele”. O empresário afirma que, até o momento, não recebeu novos reajustes imediatos, mas não descarta mudanças rápidas. “Com a guerra, está tudo muito instável. A maior parte desse combustível que o Brasil importa passa pelo Estreito de Ormuz. Isso acaba diminuindo a oferta do produto importado.”
Queda no consumo e percepção do cliente
Para o empresário Matheus Bavaresco, o aumento dos preços já altera o comportamento do consumidor. “Com os recentes aumentos dos preços dos combustíveis, tem impactado o nosso dia a dia, ocorrendo uma redução nos abastecimentos. Muitos clientes passaram a abastecer menos, aguardando uma diminuição dos preços”, afirma.
Ele relata também dificuldades no atendimento. “Esse aumento gera um desafio no atendimento com os clientes, pois muitos acreditam que o posto é responsável direto pelo aumento dos preços”.
Bavaresco afirma que os estabelecimentos buscam esclarecer os fatores que influenciam os valores. “Procuramos explicar que os preços são definidos por diversos fatores, como a questão logística, os impostos cobrados sobre o combustível, desde a refinaria até a bomba de abastecimento, além da variação do mercado internacional, com instabilidade gerada por conflitos, que refletem diretamente na alta dos combustíveis e demais produtos”.
Segundo ele, a meta é manter equilíbrio. “Nosso compromisso é manter preços justos dentro da realidade de mercado, com qualidade e um bom atendimento a todos”.
Dependência externa e dinâmica da cadeia
A empresária, proprietária dos postos Lalaco, Maria Odete Lipski, conhecida como Tati, destaca a dependência do Brasil em relação ao refino e à importação. “O Brasil não é autossuficiente em combustíveis, como muitos pensam. Extraímos o petróleo bruto em grande quantidade, porém esse petróleo precisa ser refinado e transformado em gasolina e diesel. Importamos cerca de 30% do diesel e de 10% a 15% da gasolina”, afirma.
Segundo ela, houve priorização da extração em detrimento do refino. “A Petrobras investiu em extração de petróleo, principalmente do pré-sal, porém deixou de investir em refino”, diz.
Ela afirma que o cenário internacional também influenciou os preços. “A nossa importação estava sendo feita da Rússia, que sofria embargos dos Estados Unidos e da União Europeia devido à guerra da Ucrânia. A Rússia ofertava combustível abaixo do preço internacional, e distribuidoras brasileiras compravam mais barato do que a Petrobras vendia aqui”, explica.
Com as mudanças recentes, o quadro se alterou. “Com o início da guerra do Irã, o fechamento do Estreito de Ormuz e a suspensão dos embargos, a Rússia aumentou os preços e passou a seguir os valores do mercado internacional. Então importar ficou mais caro do que comprar da Petrobras”, afirma.
Ela também cita mudanças na política de fornecimento. “A Petrobras reduziu em 50% as cotas que as distribuidoras tinham contratado. Esse excedente passou a ser vendido em leilão pelo preço internacional. As distribuidoras compram mais caro e repassam para os postos, que repassam ao consumidor final”, diz.
Por fim, ressalta a posição dos postos na cadeia. “Somos o último elo da cadeia. Não compramos da Petrobras, temos que comprar das distribuidoras. E são os postos que sofrem fiscalização dos órgãos reguladores”, conclui.



