“Falar bem é uma habilidade que pode ser desenvolvida”, afirma Maurício Belo

Professor de oratória destaca a escuta, o comportamento e o autoconhecimento na construção de uma comunicação mais clara

A comunicação foi o tema central do episódio do Podcor que recebeu o servidor público estadual, palestrante e professor de oratória Maurício Belo. Durante a entrevista ele contou como deixou a timidez de lado, passou a trabalhar com comunicação e hoje usa a própria trajetória para orientar outras pessoas.

Para Belo, a comunicação não é uma habilidade restrita a quem trabalha com público. Ela está presente nas relações pessoais, no ambiente profissional e na forma como cada pessoa se apresenta à sociedade.

A comunicação é sim um divisor de águas na sua vida. Você precisa desenvolver a comunicação, a oratória, a habilidade de se comunicar.

Da timidez à comunicação

A relação de Belo com a fala pública começou de forma distante do que vive hoje. Na adolescência, ele tinha dificuldade relacionadas a timidez.

“Eu tinha vergonha de responder a chamada no ensino médio”, contou. Segundo ele, quando era chamado pelo professor, ficava vermelho e tinha a voz embargada.

A dificuldade também apareceu quando decidiu fazer um curso de oratória. Na primeira atividade, foi escolhido para apresentar um colega, mas travou e deixou o treinamento. “Eu bloqueei e saí fora, fui correndo embora, nunca mais voltei,” Conta.

A mudança ocorreu aos 17 e 18 anos, quando percebeu que precisava desenvolver a capacidade de se expressar. A experiência no Exército também teve papel importante nesse processo. Em 1999, apesar de acreditar que seria impedido de servir por causa da baixa estatura, foi considerado apto.

Durante o período no Exército, passou a exercer funções que exigiam liderança e comunicação. A experiência, segundo ele, mudou a percepção que tinha sobre as próprias capacidades. “Eu vivi em um ano, de fevereiro de 99 a fevereiro de 2000, uma completa virada de chave na minha mente sobre quem eu era, o que eu podia fazer e o que eu não podia fazer.”

Oratória é uma ferramenta da comunicação

Durante a entrevista, Belo diferenciou comunicação e oratória. Para ele, a primeira é um conceito amplo, enquanto a segunda é uma ferramenta usada para transmitir uma mensagem com clareza. “A comunicação é tornar comum uma ação, um pensamento, um conhecimento”, explicou. Já a oratória está ligada à apresentação pessoal e envolve elementos verbais e não verbais.

Nesse processo, ele considera o autoconhecimento um dos primeiros passos para quem deseja melhorar a comunicação. A pessoa precisa identificar suas habilidades, dificuldades e a forma como se apresenta aos outros. “Para você ser um bom orador, você precisa passar por esse primeiro princípio, que é o autoconhecimento.”

Belo também defende que falar bem não significa usar palavras difíceis. Para ele, uma mensagem só cumpre seu papel quando é compreendida por quem a recebe. “Fale com simplicidade. Não tente impressionar.”

O professor recomenda a chamada leitura vigiada como forma de ampliar o vocabulário e treinar a fala. A proposta é ler textos em voz alta, identificar palavras desconhecidas, pesquisar seus significados e fazer uma nova leitura.

O comportamento também comunica

Outro ponto abordado no episódio foi a comunicação não verbal. Gestos, postura, voz, aparência e comportamento também participam da mensagem transmitida.

Belo afirma que a coerência entre discurso e comportamento é essencial para quem deseja se comunicar com credibilidade. “Antes de você abrir a boca para falar, vai chegar quem você é: o teu exemplo, o teu comportamento.”

Segundo ele, não basta desenvolver a fala sem observar as próprias atitudes. A mensagem perde força quando existe distância entre aquilo que uma pessoa diz e a forma como vive.

O mesmo princípio, segundo o professor, vale para as redes sociais. Ele afirma ter retirado conteúdos antigos de seus perfis por considerar que não representavam mais a realidade que vivia. “Eu cheguei a um ponto que eu tive que voltar, excluir muita coisa do meu Instagram na época do Facebook, e até do próprio YouTube, porque não condizia com a verdade que eu estava vivendo.”

Saber ouvir também faz parte

A entrevista também tratou da dificuldade de ouvir em uma sociedade marcada por conflitos e opiniões divergentes. Para Belo, a comunicação depende tanto da capacidade de falar quanto da disposição para escutar.

Ele divide os ouvintes em três grupos: passivo, seletivo e ativo. O primeiro não presta atenção ao que está sendo dito. O segundo escolhe apenas partes da conversa que lhe interessam. Já o ouvinte ativo participa, faz perguntas e acompanha o conteúdo da conversa. “O treinamento de oratória é, em primeiro lugar, você aprender a ouvir.”

Para ele, o autoconhecimento também passa por perceber como cada pessoa se comporta durante uma conversa. Nesse processo, o feedback de pessoas próximas pode ajudar a identificar comportamentos que nem sempre são percebidos pelo próprio indivíduo.

Comunicação e inteligência artificial

A influência da inteligência artificial sobre a comunicação também entrou na conversa. Mauricio relatou uma experiência recente em uma escola estadual, onde uma professora teria apontado dificuldades para avaliar o aprendizado dos estudantes diante do uso crescente de ferramentas de IA.

Para ele, a tecnologia pode trazer benefícios, mas também exige atenção para que não substitua a capacidade humana de criar, aprender e se expressar. “O que você precisa é ser você, que você vai acertando ou errando, você vai construir uma pessoa melhor e uma sociedade melhor para você.”

Ao falar sobre as novas gerações, Belo também destacou a importância do querer. Para ele, habilidades podem ser ensinadas e desenvolvidas, mas a disposição para aprender é determinante. “Tudo é ensinável, tudo você pode desenvolver, tudo você pode aprender, tudo você pode ensinar, mas o querer é o fator determinante.”

Treinamento busca prática da fala

Belo explicou que seu trabalho é voltado a treinamentos de oratória, com grupos de até dez pessoas. A proposta inclui prática, gravação das apresentações e análise do desempenho dos participantes.

Segundo ele, a preparação também é parte essencial da comunicação. Mesmo quando uma fala parece espontânea, existe estudo e planejamento por trás. “O melhor discurso de improviso é aquele que foi bem planejado.”

Ao final, Belo defendeu que desenvolver a comunicação pode produzir efeitos em diferentes áreas da vida. Para ele, profissionais de diversas áreas precisam saber transmitir conhecimento de forma clara. “O melhor médico não é aquele que sabe mais medicina, e sim aquele que se comunica melhor com seus pacientes.”

Com o projeto de treinamento chamado ‘Fala Belo’, mantém conteúdos nas redes sociais e treinamentos por todo o estado. Como mensagem final, o professor resumiu a proposta que orienta seu trabalho: “No palco ou na vida real, seja você mesmo!” conclui.