Advogada que denunciou violência de gênero em redes sociais explica suas motivações

As consequências da violência de gênero se refletem em muitas esferas (trabalho, educação, acesso à moradia, saúde etc), e atravessam o cotidiano de todas as mulheres. Em 2019, a pesquisa ‘Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil’, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), revelou que 29% das mulheres sofreram violência ou agressão e 40% sofreram assédio, o que se traduz na ocorrência de 503 agressões por hora, 5,2 milhões de assédios e 2,2 milhões de mulheres agarradas ou beijadas sem consentimento.

Publicação

Na última quarta-feira (14), a advogada laranjeirense Laís Amanda de Oliveira, expôs em seu Instagram, as agressões físicas e psicológicas que vivia com o ex-marido. Em entrevista ao Correio do Povo, ela contou que a última agressão física aconteceu dia 17 de janeiro deste ano. “Foi quando eu saí de casa, mas diariamente ele ainda continua me agredindo, agora psicologicamente, mesmo com o boletim de ocorrência registrado e com a solicitação da medida protetiva”.


Apesar do Brasil ter conquistado leis proclamadas internacionalmente, a análise “violência contra mulher: um desafio para o Brasil” aponta que as leis, por si só, não são capazes de alterar a realidade. Conforme Valéria Diez, promotora de justiça e coordenadora do Núcleo de Gênero, relata, as leis são importantes instrumentos para prevenção, conscientização e repressão, mas devem ser implementadas para que tenham efetividade.


Ou seja, a violência naturalizada e enraizada na cultura da sociedade mantém o padrão de silenciamento, medo, vergonha, ou a crença das mulheres na mudança de seus agressores, que são normalmente homens próximos das vítimas: 76,4% dos agressores são conhecidos, sendo 39% parceiros e ex-parceiros e 14,6% parentes.

Luta

Por este motivo, a publicação da Laís não foi apenas um desabafo, a atitude foi motivada por uma luta social que busca unir e conscientizar outras mulheres. “Para todas as mulheres que estiverem passando por qualquer situação de violência doméstica – lembrando que a violência não é só física – eu não me expus só por mim, mas por todas que já passaram por isso e ainda passam. Farei tudo o que eu puder para ajudar da forma que for necessária. Se você, mulher, precisar, nem que seja só desabafar, eu estarei disposta a te ouvir. E se precisar mais que isso, irei até onde for para te livrar do agressor.”

Relembre o relato

Em sua publicação na rede social, Laís relatou a triste e chocante história. “A primeira violência física aconteceu quando a minha filha Georgia tinha sete dias de vida. Eu mal conseguia andar por causa da cesariana e o “senhor deus” na terra (ex-marido) chegou em casa à noite e bêbado. Eu o questionei, me irritei nesse dia, por passar o dia todo sozinha e preocupada com ele que nunca tinha chego tão tarde e as agressões começaram. Lembro como se fosse hoje, porque eu já revivi esses fatos na minha cabeça inúmeras vezes. Ele me dava tapas na cabeça, me jogou no chão, bati a cabeça na parede e um ponto abriu, tenho a marca até hoje, mesmo depois de outra cicatriz por cima. E no dia seguinte eu me sentia culpada, eu sei que lendo parece um absurdo, eu já senti isso também ouvindo histórias parecidas com a minha, mas era assim que eu me sentia, porque eu tinha “provocado-o” enquanto ele estava bêbado, coitado, não podia responder por ele. Escondi os hematomas de todos e seguimos a vida. Depois disso aconteceu mais 1, 2, 3, 4, 5… dez vezes, eu perdi as contas. Já teve vezes que acordei com a lanterna ligada na minha cara e ele me batendo, sem eu imaginar o motivo. Eu consigo me lembrar que na hora que tudo acontecia eu pensava “nunca mais vou deixar isso acontecer comigo”, mas no dia seguinte parecia que tinha sido “só” um pesadelo, que aquela pessoa que me agrediu não existia e que era um problema que eu tinha responsabilidade de ajudá-lo a mudar. Sei que teve vezes que fui sufocada até perder o ar, mas mesmo inconsciente eu pensei “se eu apagar agora eu não tenho chances de sair daqui viva”. Já fiquei com uma faca sendo imprensada no meu pescoço. Sem falar nos xingamentos, em viver pisando em ovos por ter medo da reação dele, em não poder dizer “não” pro sexo antes de dormir sem que ele ficasse bravo e dizendo que eu tinha outro homem já que não queria ele naquele dia. Em não poder ir ao banheiro da faculdade sem mandar foto provando onde eu estava, em não poder ir no restaurante da faculdade com minhas amigas pra evitar cara feia quando chegasse em casa. Hoje não consigo entender como pude ter aceitado tanta coisa, onde eu estava com a cabeça de me permitir”.