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Ayahuasca: conheça as medicinas da floresta e seus benefícios

As indígenas do povo Shanenawa, Awa Pai e Pekuruny Kaxinawá, na última semana estiveram em Laranjeiras e apresentaram a busca pela cura corporal e espiritual

Representantes do povo Shanenawa, as jovens Awa Pai e Pekuruny Kaxinawá, vindas da terra indígena Katukina Kaxinawá, de Feijó, no Acre, visitaram o Jornal Correio do Povo do Paraná, nesta semana.  Awa Pai foi a condutora da Cerimônia da Ayahuasca em Laranjeiras do Sul. Defensoras dos benefícios das medicinas da natureza, elas buscam difundir cada vez mais a prática e desfazer a visão estereotipada dos indígenas.

Segundo o projeto de lei N.º 179, de 2020 da Câmara dos Deputados, entidades que utilizam a Ayahuasca em seus cultos ou rituais são reconhecidas como entidades religiosas, sendo-lhes asseguradas o livre exercício de suas atividades e manifestações, a proteção aos locais de culto e às suas liturgias. Portanto, a prática é legal.

Cerimônia em Laranjeiras

De acordo com a psicóloga Fernanda Bonini, organizadora da cerimônia em Laranjeiras, foi um momento de muita conexão e esteve lotado. Havia a necessidade de pessoas que realmente cultuassem essa prática na raiz, sem xamanismo. “Tivemos várias cerimônias antes delas aqui, mas não com detentores dessa sabedoria. A diferença é absurda”.

Segundo Fernanda, há um certo tempo, Jeane Prochinski buscava trazer esses rezos para a cidade. “Eu apoiei voluntariamente e hoje, cerimônias assim que só aconteciam em Renascença, chegaram à Laranjeiras. “Nosso objetivo é ampliar a realização de cerimônias membros das tribos indígenas. Em muitos casos, pessoas não indígenas se apropriam do assunto e se denominam donos da verdade. Nossa intenção é trazer pessoas como Awa Pai e Pekuruni, que são parte de uma história verdadeira e cheia de sabedoria”, afirma Fernanda.

Poder da natureza

Elas viajam pelo Brasil e apresentam a história Shanenawa há mais de oito anos. Awa Pai destaca a rica cultura que transcende as cerimônias, embora estas sejam uma forma de reconexão com a natureza e de cura, tanto material quanto espiritual. “Fomos ensinadas que muitas pessoas estão perdidas e a medicina é uma ferramenta para se conhecer melhor, iluminando os pensamentos e ações em relação aos outros”, disse ela.

Ao falar sobre os métodos de cura da natureza, ela cita os mais conhecidos, como rapé e sananga, mas as que a leva a mediar cerimônias é a Ayahuasca. “Consumimos o Ni, uma bebida feita a partir da infusão do cipó-jagube e o arbusto-chacrona. Durante o encontro, entoamos rezos, pois para nós a música é essencial, sendo por meio dela que invocamos forças e abençoamos”, detalha.

Conforme Awa Pai, o povo Shanenawa possui quatro tipos de músicas, mas durante os rituais utiliza-se principalmente o pakarini, louvores que falam de Deus e da natureza, e o muká, canções que buscam a cura espiritual ou física, dependendo das necessidades presentes. “Essas medicinas trabalham de acordo com o seu pedido e podem iluminar aspectos da vida que necessitam de atenção. Elas agem nos sentidos, ampliando a percepção e permitindo acessar a visão espiritual”.

Segundo ela, a força da medicina pode trazer mirações (expansão da consciência), proporcionando uma experiência semelhante a assistir a um filme, onde são vistas situações que podem ajudar, mas é importante estudar e compreender o que é mostrado, pois nem tudo se concretiza como previsto.

Contraindicações

Awa Pai destaca que embora a medicina seja para todos, nem todos são para a medicina. Antes de participar de uma cerimônia, é necessário fazer uma dieta preparatória. Pessoas com problemas psicológicos devem consultar um médico, pois a Ayahuasca pode ter efeitos reversos em certos transtornos e doenças psiquiátricas. “Realizamos uma anamnese para avaliar a condição de saúde dos participantes, e dependendo do caso, recomendamos que não participem. Às vezes, sugerimos outras formas de tratamento antes de experimentar a Ayahuasca, como chás, banhos ou o rapé. É uma questão delicada e cada caso é avaliado individualmente, priorizando a segurança e o bem-estar dos participantes”, diz a estudante de majé.

Preparação

Awa Pai afirma que na aldeia, existem vários pajés e majés que trabalham há muito tempo e todos estudam com eles para passar as informações corretas, como usar o rapé e a preparação antes do remédio. “Por exemplo, no dia em que for tomá-lo, alguns alimentos não podem ser ingeridos. Além disso, não pode consumir álcool e sem relações sexuais três dias antes. É preciso estar limpo para tomar a medicina”.

A cerimônia não tem hora para acabar. É um momento individual de força e expansão da consciência, por isso a importância de se preparar”, disse ela. 

Awa Pai revela que durante a gravidez, há uma dieta e rituais para apresentar a criança à medicina e que a filha, que hoje tem cinco anos, sempre a acompanhou. “A cultura não é apenas tomar medicina ou participar de cerimônias, é conviver com ela. Por isso, é necessário dar tempo para que ela se desenvolva em nosso corpo e não se torne um vício”.

Efeitos

Os efeitos subjetivos são visão de imagens com os olhos fechados, delírios parecidos com sonhos e sensação de vigilância e estimulação. É comum ocorrer hipertensão, palpitação, taquicardia, tremores e euforia. Náuseas e vômitos são comuns.

A ação alucinógena conhecida como “miração” é uma manifestação específica e frequente, caracterizada por visões de animais, “seres da floresta”, divindades, demônios, sensação de voar, substituição do corpo pelo de outro ser (homem ou animal), dentre muitas outras, de acordo com a experiência individual. A Ayahuasca pode promover ilusões visuais, auditivas, olfativas e dos demais sentidos. Os chamados “estados alterados de consciência” provocados pelo chá podem ser considerados como alterações da percepção, cognição e afetividade.

Benefícios

No início do século XX, o povo Shanenawa foi praticamente dizimado com a alta do garimpo. Segundo Awa Pai, quem não foi morto, virou escravo. Assim também aconteceu na época do látex, o chamado “ouro branco”. Com o período difícil, mais de 90% dos homens se tornou alcoólatra. Esse costume quase se perdeu, mas a retomada dos rezos e as cerimônias de Ayahuasca, salvaram a nossa tribo. Hoje, menos de 15% são alcoólatras”, diz Awa Pai.

Para a indígena a busca por cura abrange tanto o corpo como o espírito. As pessoas relataram melhorias em diversas áreas da vida, mesmo semanas após a cerimônia. “Há casos em que se buscava a cura da depressão e hoje, essa pessoa não toma nem um tipo de remédio. Assim como vício em drogas, como maconha e cocaína. Graças à Ayahuasca, encontram a liberdade”, finaliza.