texto que agora apresento é resultado de pesquisa realizada por mim e orientada pela Profª Drª Dulce Maria Strieder, do Programa de Mestrado em Educação, área de Concentração em Sociedade, Estado e Educação, da Unioeste, Campus de Cascavel, na disciplina A escola e a formação da cultura científica. O objetivo de nosso trabalho é a difusão científica, seus vínculos com a cidadania e a tecnologia; a relação entre a “cultura científica” e o “conhecimento escolar”; e também, a cultura científica no processo de ensino-aprendizagem e suas inter-relações com as demais culturas presentes na escola.
Primeiramente, quanto ao conceito de ciência, partimos do pressuposto desta como um “conjunto de disciplinas visando à mesma ordem de conhecimentos”. Ou seja, no nosso entendimento, ciência diz respeito à “um conjunto de conhecimentos sobre determinado objeto ou fenômeno, agrupados segundo certos critérios e a partir de uma metodologia específica”. Por outro lado, como saber escolar, o conhecimento se explicita nos conteúdos das disciplinas de tradição curricular: Língua Portuguesa e Língua Estrangeira Moderna (Inglês, Espanhol, entre outras); Matemática, Física, Química e Biologia; Arte, História e Geografia; Filosofia e Sociologia; Educação Física, além das disciplinas de Ciências e Ensino Religioso, no Ensino Fundamental.
Quanto à classificação das ciências, atualmente, esta vai depender da orientação teórico-metodológica de quem a classifica. Gradativamente os saberes foram se “especializando” à medida que buscavam fugir do caos e apontar para uma nova “ordem” social e para as regularidades ou leis que regem a natureza de todas as coisas.
Aristóteles (384-322 a.C.), filósofo grego, principal discípulo de Platão (c.428-c.348 a.C.), escreveu obras sobre lógica, fenômenos naturais, metafísica, ética, vida animal, política, retórica e poética. O mesmo formulou uma primeira classificação das ciências enquanto “conjunto de conhecimentos sobre determinado objeto ou fenômeno, agrupados segundo certos critérios e a partir de uma metodologia específica”, distinguindo-as em três grupos: o das Ciências Teóricas (Física, Matemática e Metafísica), o das Ciências Práticas (Lógica e Moral) e o das Ciências Produtivas (Arte e Técnica). De Aristóteles à atualidade, os saberes foram se especializando cada vez mais e novas ciências foram surgindo gradativamente conforme a demanda de cada período histórico.
A partir de então, as chamadas Ciências da Natureza (Física, Química, Biologia), apoiadas na Matemática e Geometria (Ciências Exatas) ganham credibilidade ao passo em que se opõem à Teologia (Ensino Religioso) enquanto ciência sobrenatural acerca da existência de Deus e de seus atributos como explicação dos fenômenos naturais. Desse modo, o conhecimento científico foi se especializando e à medida que os filósofos problematizam novos questionamentos, os cientistas vão formulando novas hipóteses e teorias, o que consequentemente dá origem à novas formas de conhecimento.
O conhecimento científico ficou tão especializando que praticamente existe uma ciência para cada coisa. O fato é que tamanha especialização não significa, necessariamente, maior compreensão da realidade, ocorrendo do especialista ser tão conhecedor de um aspecto (“parte”) do real, mas ignorar a coisa como um “todo”. Por exemplo, pode ocorrer de um indivíduo saber tanto sobre ‘nariz’ e ‘ouvido’ (otorrinolaringologista), ‘olhos’ (oftalmologista), ‘coração’ (cardiologista), mas ser incapaz de pronunciar-se sobre o que é ser humano (“quem somos nós”), qual nossa origem (“de onde viemos”) e o que nos reserva o futuro (“para onde vamos”). Muitas vezes, o especialista sabe tanto sobre ‘focinho’, ‘língua’, ‘orelhas’, ‘patas’ e ‘cauda’, mas é incapaz de dizer que o que está no canil é um “cão”. Eis aqui um exemplo contundente de como o conhecimento “perde” sua ‘unidade original’ e chega ao ambiente escolar de modo fragmentado enquanto conhecimento compartimentado e preso à uma “grade curricular” por trás dos muros das salas de aula de inúmeras escolas brasileiras.
Para não concluir, vale ressaltar que as ideias aqui apresentadas não são a palavra final sobre o assunto em questão, mas apenas alguns questionamentos que problematizam o cotidiano da escola pública brasileira em que professores são vítimas de ‘modismos educacionais’ que fazem as ciências escolares (Português, Matemática, Geografia, História, entre outras) perderem de vista seu “objeto de estudo”; por outro lado, os educandos tem sua “formação escolar” desvirtuada; e os pais sentem-se perdidos quanto à “orientação educacional” que devem dar aos seus filhos. Ensinar e aprender é preciso! É preciso também recuperar a unidade do conhecimento científico e evitar a fragmentação na “grade” curricular da escola pública brasileira.
*Opinião de José Ferreira Sobinho, mestrando em Educação (UNIOESTE); Pós-graduado em História e Filosofia da Ciência (IBPEX-PR); Especialista em Filosofia Clínica (IPACKTER-RS); Graduado em Filosofia com habilitação em Sociologia e História (PUC-PR)



