Cansados de esperar pela conclusão de suas moradias no assentamento Celso Furtado em Quedas do Iguaçu, cerca de 80 famílias procuraram o Ministério Público. Os assentados deram entrada dia 16, no MP em Cascavel, com um pedido de investigação contra a Cooperativa de Crédito Rural (Crehnor). A denúncia está protocolada na Justiça Federal com o número 125.002.001-454/2010.33.
A cooperativa com sede em Laranjeiras do Sul é a gerenciadora responsável pela construção de 670 casas. Conforme as famílias, somente sete casas estariam construídas nos dados apresentados pela Caixa Econômica. O programa da habitação rural foi lançado pelo Governo Federal em 2007 e previa a construção de 1097 habitações no assentamento. Para cada habitação os recursos seriam de R$ 7 mil, liberados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), e R$ 4 mil pela Caixa Econômica, totalizando R$ 11 mil.
Entre as denúncias ao MP estão a desinformação, falta de transparência na aplicação desses recursos, ameaças para assinar a filiação à cooperativa e a não desistência do contrato; e ainda a assinatura de notas fiscais e recibos de mão de obra, sem a construção das casas.
Em entrevista a Rádio Internacional de Quedas, na última semana, o presidente da Crehnor, Laureci Leal reconheceu o problema, mas culpa a burocracia do sistema pelo atraso das obras. Segundo ele, somente um grupo de 32 famílias estaria questionando o atraso das moradias. Ele afirmou que alguns empreiteiros ainda não receberam pelo serviço prestado e que a instituição pretende normalizar e sanar os problemas. Já o coordenador de habitação da cooperativa Luis Carlos Costa, afirmou em entrevista a imprensa que a instituição já administrou R$ 7,3 milhões dos recursos liberados e que aguarda a liberação pela Caixa de mais R$ 5,3 milhões, além dos R$ 8 mil para cada assentado (recursos adicionais que virão via Governo Federal e Incra).Ou seja, R$ 11 mil para cada família seria insuficiente para construção de uma casa de 50 metros quadrados. Assentados afirmam que já são cerca de 300 famílias com pedido cancelamento de contrato na Caixa Econômica. Os assentados cogitam ainda pedir a desfiliação da cooperativa e o reembolsa da cota parte de R$ 400 reais que cada um pagou para se filiar. A Crehnor também não explicou porque se propôs a fazer cada casa por R$ 11 mil e agora quer mais dinheiro.
Desencontro
de informações
Outras 32 famílias da comunidade dos Orgânicos, já havia dado entrada junto a Caixa Econômica no pedido de cancelamento do contrato e desfiliação da cooperativa Crehnor. Segundo o professor Sergio Weirich, das 32 casas, nenhuma está concluída. Algumas estão somente com a terraplanagem do terreno e outras só com a fundação levantada. Sergio e outros assentados tiveram acesso a tabela de construção junto a Caixa e lá consta que quatro casas desse grupo estariam com 45% das obras já realizadas. Uma das casas é da assentada Maria de Assunção dos Santos que há dois anos aguarda a construção que está só na terraplanagem. Eu não sei de quem é a culpa. Nunca assinei nem uma nota fiscal ou recibo e estranho o fato de constar na Caixa que a minha casa tem 45% das obras já realizadas, disse dona Maria. Não temos nada contra a Crehnor, mas o que queremos é que o Incra assuma todo o gerenciamento, repassando direto aos assentados os recursos para construção das moradias.
Os dois vereadores que representam parte dos assentados também estão sendo denunciados. Silvano Ribeiro (PT), teve seu nome relacionado com pedido de prisão preventiva pela Polícia Federal na operação ‘Tolerância Zero’, por retirada ilegal de madeiras do assentamento. Já o vereador Claudemir Torrentes de Lima (PT), está sendo denunciado pelas famílias ao MP, por estar exercendo o cargo de diretor administrativo da Crehnor. Questionado pela reportagem do Jornal Correio, Silvano Ribeiro disse que não comentaria o assunto neste momento. Já Claudemir Torrentes explicou que encaminhou (e mostrou ao jornalista) pedido de renúncia do cargo há algum tempo, mas mesmo assim seu nome continua relacionado no cargo de diretor, contra sua vontade. A reportagem tentou ouvir o presidente da Crehnor, Laureci Leal, mas ele não foi localizado.



