O trágico desfecho de uma discussão entre três adolescentes na saída da aula, na sexta-feira passada, começou a ser traçado quando o pai de uma delas foi até a escola, pouco depois das 17h, para separar a briga e levar a filha única, de 13 anos, para casa. O desentendimento das meninas, por conta de um pedaço de chocolate, se estendeu até domingo, quando Adriano Gaspari Viegas, 36 anos, acabou morto a tiros pelo pai das outras duas, no pátio de casa, na Estrada João de Oliveira Remião, em Viamão. O suspeito, de 31 anos, confessou o crime à polícia nesta terça-feira.
Segundo a mulher de Viegas, Francisca Souza, 36 anos, a mãe das duas meninas ligou, ainda na sexta-feira, dizendo que queria esclarecer a confusão e selar as pazes. Após a conversa, ficou claro para a comerciária que não haveria motivo para desavença entre as duas famílias.
— Já conhecia ela da escola. Conversamos numa boa. Para nós, aqui em casa, estava tudo resolvido. A única coisa é que, na segunda-feira, iríamos na escola conversar com a diretora sobre a briga — conta Francisca.
No domingo pela manhã, Francisca diz que acordou com alguém gritando seu nome da calçada. Ao sair na porta, por volta das 8h, percebeu que eram os pais das meninas com quem sua enteada, filha de Viegas, havia brigado.
— Convidei eles para entrar, mas disseram que não precisava, que só queriam conversar bem rapidinho. Ele (o suspeito) pediu que eu chamasse o Adriano.
Francisca, então, teria voltado até sua casa, nos fundos da madeireira da família, e avisado o companheiro sobre a visita. Enquanto Viegas escovava os dentes, ela voltou à frente do pátio, onde estava o casal. Quando Viegas se aproximou, conta Francisca, o pai das duas adolescentes sacou uma arma e começou a disparar.
— Ele só disse: “Que conversar que nada. Vim aqui para te matar”. E continuou atirando.
Ela lembra que o suspeito foi até o carro buscar mais munição. Depois, voltou a atirar contra Viegas, que caiu morto no quintal. A Polícia Civil aguarda os laudos do Instituto Geral de Perícias (IGP) para confirmar quantos disparos foram efetuados, mas Francisca garante que foram 12 tiros entre tórax, pescoço e braço.
— É algo horrível. Não dá para acreditar que uma briga boba, uma bobagem dessas, iria terminar assim. Ainda estou chocada. Nunca vou esquecer o que vi. As gurias eram como irmãs. Colegas de sala aula. Já dormiram aqui em casa.
Ela conta que o marido ainda tentou resistir aos ferimentos:
— Ele repetia que não ia morrer, mas o homem continuou atirando.
A casa da família, às margens da Estrada João de Oliveira Remião, em Viamão, tem um cartaz preso à grade que traduz o sentimento dos parentes que perderam o pai: família em luto.
Atirador se apresenta à polícia e dá outra versão
Nesta terça-feira, o pai das duas meninas se apresentou à 1ª Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (1ª DHPP) de Porto Alegre e assumiu a autoria dos disparos. No depoimento prestado ao delegado Rodrigo Reis, alegou que Viegas foi até a escola e deu um tapa em uma das adolescentes. Além disso, disse que Viegas teria passado a ameaçar sua família.
Ainda conforme o depoimento, afirma que ele e a mulher foram visitar a outra família no domingo para esclarecer os fatos, mas que as mulheres começaram a discutir, e Viegas teria surgido com uma arma em punho. Os dois maridos, então, teriam entrado em luta corporal e ele, conseguido tirar a arma de Viegas. Contou que puxou o gatilho em legítima defesa, matando o trabalhador autônomo.
— Temos de confirmar essa versão de legítima defesa ouvindo outras testemunhas. Se não se confirmar, poderá ser pedida a prisão preventiva dele —disse o delegado Rodrigo Reis.
Após prestar depoimento, o autor confesso dos disparos foi liberado. O delegado diz que não havia como realizar a detenção por não haver flagrante nem prisão preventiva decretada. O caso será remetido nos próximos dias para a Polícia Civil de Viamão.
Fonte: ZH



