Quando, em uma das paradas, participantes da Marcha das Vadias leram o nome das últimas mulheres mortas por feminicídio na cidade de Guarapuava, muitos não contiveram as lágrimas. Eram pais, mães, amigos, primos, que perderam um ente querido pela violência contra a mulher. Guarapuava amarga dados recentes que a colocam como uma das cidades mais violentas para a mulher no Paraná e no Brasil. Segundo o Mapa da Violência 2012, é a 11° do Paraná e a 91° do Brasil. O índice, de 8,2 mulheres mortas em cada 100 mil é quase o dobro da média nacional. Mesmo assim, não existe um(a) delegado(a) na Delegacia da Mulher e não há abrigos para as vítimas da violência. Quem não tem pra onde ir, é mandada para o albergue da cidade.
A Marcha das Vadias aconteceu em Guarapuava no último sábado (23) e atraiu centenas de pessoas que pediram um basta na violência, políticas públicas para as mulheres e protestaram contra o pensamento machista que culpabiliza a vítima. Afinal, o nome das vadias é difundido no mundo inteiro depois de um policial do Canadá afirmar que os estupros aconteciam devido à vestimenta das mulheres, pensamento recorrente na sociedade, até mesmo quando se trata de crianças violentadas.
Sarah Layse é guarapuavana, mas mora atualmente em Curitiba. Emocionada e carregando um cartaz com a frase: Emanuelli, vítima da força de um covarde ela veio participar da marcha. Emanuelli, sua prima, foi morta neste mês. A Manu tinha 17 anos, dia 14 ela saiu da escola e desapareceu. Depois encontraram o corpo dela perto do terreno da casa em que morava, tinha sinais de estupro e ela foi asfixiada com o cordão do próprio tênis. Não havia sinais de luta, então quem a abordou, provavelmente, já era alguém que de alguma forma a conhecia, contou Sarah.
Dona Anair Guedes Moreira, 83 anos, veio de Turvo para participar e apoiar as filhas que estavam na Marcha. Em um primeiro momento, afirma que se assustou com o nome, mas depois de suas filhas explicarem, aderiu à causa, até porque, segundo ela, já sofreu com isso no passado. Bom seria se isso tivesse existido há 30 anos, afirmou.
A Marcha em Guarapuava
Com início no Canadá em 2010, a Marcha chegou a Guarapuava neste ano pelas redes sociais. Segundo a professora Rosemeri Moreira, uma das organizadoras da marcha, essa é uma característica que vem se repetindo. A marcha não é nada institucional e nem articulada em nível mundial e nem nacional. Aqui começou pelo facebook, por um grupo de um curso de arte e educação da Unicentro. E depois as outras feministas, como eu, que participo da Marcha Mundial das Mulheres, vendo a iniciativa das moças, também ajudamos a organizar a marcha, explica. Sádina Alves, junto a duas amigas, foi quem deu início ao movimento na internet. Foi lindo. Vieram mais pessoas que eu imaginava. Achei que passamos nosso recado. E esse foi só o começo, afirma.
Foram aproximadamente 300 participantes. Mulheres, homens, idosos e crianças. A Marcha contou com o apoio da APP sindicato, o Movimento do Passe Livre (MPL), o Levante pela Juventude, a Marcha Mundial das Mulheres e o Movimento das Mulheres da Primavera. As vereadoras Eva Schran e Maria José Mandu também estiveram presentes. É emocionante e fundamental. Eu vejo que a nossa cidade tem esperança e está mudando. Percebo muito isso na presença da juventude e na forma tão organizada e participativa que aconteceu a passeata, afirmou Eva.
Um dos muitos homens que participaram da marcha, o estudante Geovane Fedrecheski, afirma que de primeiro momento se assustou com o nome, mas, depois de compreender, abraçou a ideia. Eu tive a mesma reação que todo mundo tem por causa do nome, de estranhamento. Mas depois que eu estudei, pensei em apoiar. E valeu muito a pena. Não foi em vão, se ajudar uma pessoa, já vai ser ótimo, afirmou.


Emocionada, Sarah contou sobre Emanuelli, sua prima morta há poucos dias



