Iniciou na manhã de ontem (terça-feira), no Fórum da Comarca de Laranjeiras do Sul, o julgamento de Jorge Dobinski e Antoninho Somensi, acusados pelas mortes de José Alves dos Santos, 34 anos, e Vanderlei Nogueira das Neves, 16 anos.
O crime ocorreu em 16 de janeiro de 1997, num possível confronto entre seguranças da empresa Araupel e trabalhadores sem-terra. O júri já foi cancelado oito vezes desde esta data. O incidente teria acontecido numa localidade denominada de ‘Posto Xagú’, na fazenda Pinhal Ralo, em Rio Bonito do Iguaçu.
Segundo relato do primeiro depoente José das Neves, pai de uma das vítimas fatais e que participou do incidente, eram seis trabalhadores que se dirigiam para o local trabalhar numa plantação agrícola. Eu não vi quem efetuou os disparos, mas após os seguranças terem aberto fogo contra nós, eu vi três dos jagunços, entre eles o Somensi, afirmou o depoente.
José também disse conhecer o outro réu Jorge Dobinski de uma agremiação evangélica na cidade de Quedas do Iguaçu. O agricultor entrou em contradição no depoimento em alguns pontos ao ser questionado pela defesa. Respondendo a um dos questionamentos que o movimento de trabalhadores possuía uma equipe de homens que atuava como segurança e muitas vezes faziam uso de armas brancas e do fogo. O trabalhador comentou que o grupo alvejado por tiros no incidente não fazia uso de armas de fogo.
Até o fechamento desta edição o júri transcorria na mais absoluta ordem e tranquilidade, com exceção de alguns embates calorosos entre os advogados de defesa, acusação e promotoria.
Na acusação estão atuando os advogados Andréia Indalencio e Luiz Eduardo Greenhalgh. Na defesa Edemar Zílio e Nilso Sguaresi. Estão atuando no caso os promotores Fernando Cubas Cesar e Jacson Zílio. O júri está sendo presidido pelo juiz Dr. Bernardo Fazolo Ferreira. O corpo de jurados está composto por quatro homens e três mulheres. Por duas vezes a acusação tentou arrolar o delegado de Polícia Sebastião Ramos, que foi o responsável pelo inquérito na época. Mas os advogados de defesa pediram a dispensa do mesmo por não ter sido arrolado como testemunha com antecedência. Os jurados também entenderam pela dispensa do delegado.
De acordo com a organização não governamental paranaense, Terra de Direitos, os assassinatos ocorreram no mesmo dia em que o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, assinou o decreto de desapropriação de pouco mais de 16 mil dos 87 mil hectares da fazenda.
Defesa acredita na absolvição dos réus
Segundo o advogado dos réus, Edemar Zílio, não há provas concretas contra os acusados e há provas que os mesmos não estavam no local dos fatos no dia do incidente. Houve um equívoco no inquérito policial acusando os meus clientes e vamos provar isso no decorrer do julgamento, afirmou Dr. Zílio.
O advogado levantou a hipótese do confronto ter ocorrido entre os próprios sem-terra, já que havia dois acampamentos naquela região, com conflito entre ambos. Um seria de integrantes do Movimento de Trabalhadores Sem-terra (MST), e outro grupo dissidente liderado por uma pessoa conhecida como ‘Preto’. O promotor de Justiça Jacson Zílio espera que os jurados apliquem condenação máxima aos réus. Ele não tem dúvidas da participação dos acusados nas mortes.
Em 1996 houve outro incidente
Nos depoimentos foi relatado outro incidente envolvendo seguranças da empresa e um grupo de 150 trabalhadores rurais. Os seguranças teriam sido dominados por integrantes do movimento e suas armas confiscadas. Entre eles estaria Antoninho Somensi, acusado de ser um dos autores dos disparos de armas que culminou com a morte de dois trabalhadores e o ferimento de outros quatro. Na época os seguranças teriam sido entregues ao setor policial de Laranjeiras do Sul.



