Em entrevista exclusiva a Central de Diários/ADI-BR, o presidente da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pellizzaro Jr, falou sobre o setor e o crescimento do Brasil.
A CNDL é a maior representação do varejo brasileiro, reunindo 27 federações estaduais, 1.587 Câmaras de Dirigentes Lojistas e mais de 800 mil pontos de venda associados. A Confederação administra o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), maior banco de dados da América Latina de informações creditícias sobre pessoas físicas e jurídicas.
Pellizzaro é graduado em economia pela Universidade Federal do Paraná e em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Ele fica no cargo até 2014.
Como está a situação do varejo brasileiro?
Roque Pellizzaro Jr. – Até o final de 2011, tivemos crescimentos sucessivos, alavancados pela ascensão social da população, crédito e empregabilidade. Esse processo maturou e já não temos mais a mesma mobilidade social. Só através da educação vamos retomar o ritmo anterior. Com relação ao pleno emprego, deixou de ser um fator novo, que agregue novos consumidores. E no que diz respeito ao crédito, houve uma forte expansão, o que ajudou muito no aumento de vendas. Mas aí também ocorreu uma maturação, porque as pessoas estão com um nível muito alto de comprometimento de suas rendas. Tanto que o setor financeiro espera um crescimento muito pequeno na oferta de crédito para 2012 e 2013, no comparativo com os anos anteriores.
O Brasil está entrando em uma nova fase?
Pellizzaro – Sim e isso está se refletindo nas vendas do varejo. Continuamos crescendo, mas a índices bem menores. Estávamos crescendo a 9, 10, 11 por cento nos últimos cinco anos. Nossa avaliação para 2012 é que teremos crescimento não superior a 4% em comparação a 2011. Os brasileiros não estão super endividados, mas, sim, com renda super comprometida. O resultado foi que a inadimplência apresentou altas consecutivas por mais de um ano. O que é que o brasileiro pensa agora? Olha, tá na hora de parar de comprar um pouquinho e acertar as contas. É um processo de acomodação até salutar, para que o comércio brasileiro se torne sustentável. As expectativas estão concentradas nas vendas de Natal. Devemos ter um Natal bom, mas aquém do crescimento registrado em 2011. O mesmo deve ocorrer no Dia das Crianças.
O que há de positivo no cenário econômico nacional?
Pellizzaro – Um fator positivo que estamos vendo para 2013 são esses R$ 7,5 bilhões que o brasileiro vai deixar de gastar com energia elétrica. Essa sobra terá dois destinos: ou vai para o consumo, no caso da pessoa física, ou para investimento, no caso das empresas. É um dinheiro que vai ser muito benéfico para a economia. Vai melhorar a liquidez interna de forma significativa e vai manter a inflação sob controle. Um recuo dessa proporção permite que haja expansão nas vendas de itens que não impactam os índices de inflação, mantendo baixos os juros.
E quanto à queda dos juros?
Pellizzaro – É outro fator positivo. Em 2013, vamos começar a colher os frutos do processo de redução de juros iniciado em 2012. As decisões tomadas na área econômica não têm um resultado imediato. As pessoas ainda estão pagando prestações com os juros velhos. E elevados. A partir do momento em que forem saudados os compromissos assumidos antes da queda das taxas, as pessoas vão poder contratar novas dívidas, novos empréstimos, e realizar novas compras já nas faixas de juros mais baixas. Esse dinheiro que não vai ser consumido pelos juros deve circular na economia em 2013. Energia mais barata e juros mais baixos são os principais fatores positivos que atingirão todo o Brasil.
Como está a relação crédito/inadimplência?
Pellizzaro – Está chegando também num nível de estabilização da oferta. A expansão do crédito no Brasil vai passar pelo alongamento dos prazos para pagamento de bens de maior valor, como imóveis e automóveis. Com relação à inadimplência, a tendência dos próximos meses é de estabilidade e até queda. O brasileiro está cuidando para manter suas contas em dia. Isso mostra a maturidade dos consumidores.
O brasileiro está aprendendo a lidar em ambiente de segurança econômica?
Pellizzaro – Sim. Está aprendendo a consumir. Começa a exigir mais qualidade e a compreender que esse processo de consumo precisa ser pensado. Havia uma demanda reprimida que fluiu quando as pessoas começaram a conviver com mais estabilidade no emprego, com renda melhor e com elevação do patamar social. A ânsia do primeiro momento passou, a mola perdeu força. As pessoas já compraram o que mais precisavam.
Como o senhor avalia as ações de incentivo ao consumo?
Pellizzaro – Esse governo (federal), de forma correta, setorizou as ações de incentivo ao consumo, nesse primeiro momento, em eletrodomésticos e automóveis. Só que a manutenção dessa desoneração, pontual e por muito tempo, leva a uma concorrência desleal entre setores. Na verdade, o Brasil tem que passar por um processo de desoneração bem profundo. Se continuar no ritmo atual, a projeção é que em mais oito governos os tributos serão tão pesados, que vamos trabalhar só para manter o Estado. O que precisa ser discutido é a matriz tributária brasileira.



