As Faculdades Alto Iguaçu (FAI) iniciaram o curso de Especialização em Educação do Campo em grande estilo. Uma das primeiras aulas contou com a presença de uma professora doutora e pesquisadora da educação e dos movimentos sociais. A professora, doutora em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Maria Antônia de Souza, falou ao Diário Correio do Povo do Paraná sobre sua concepção educacional e a respeito da educação do campo como construção sociopolítica que se contrapõe à ideologia da educação rural e do capitalismo agrário historicamente desenvolvidos no Brasil.
Segundo ela, em se tratando de um curso que tem os professores das escolas públicas localizadas no campo como principais sujeitos, é fundamental trazer para a sala de aula e para o debate educacional os problemas que afligem, historicamente, a educação rural, e indicar os caminhos trilhados pelos movimentos e organizações sociais do campo na construção da concepção e prática coletiva da educação do campo.
É muito importante que os professores, que fazem a especialização em Educação do Campo, tenham acesso a textos críticos da educação, e a textos específicos da temática construídos pelos coletivos de educação existentes no país. É essencial a construção de uma perspectiva transformadora no debate da realidade dos povos do campo e das contradições que marcam a sociedade, em especial a concentração da terra.
Para Maria Antônia, esse tipo de estudo, a partir de textos críticos e da análise da própria realidade vivida nas escolas públicas localizadas no campo, gerará a oportunidade de reflexão e problematização dos alunos da especialização sobre a própria prática e sobre possibilidades e lutas necessárias na esfera das políticas públicas.
A concepção de educação que orienta o nosso trabalho no curso de especialização é a dialógica, de acordo com as reflexões empreendidas por Paulo Freire na obra Pedagogia do Oprimido. É fundamental que os processos educativos sejam marcados pela problematização dos aspectos conjunturais e estruturais da sociedade brasileira. A partir daí, os alunos, em debate contínuo, fortalecem a prática da análise crítica da própria realidade, sempre buscando aprimoramento dos processos pedagógicos em sala de aula e das políticas públicas necessárias à efetivação do direito social e fundamental que é a educação.
A professora doutora Maria Antônia ressalta a importância de problematizar a realidade a partir das experiências vividas (no âmbito da sala de aula e da política governamental local, estadual e nacional). Segundo ela, os alunos têm relatos de experiências individuais e coletivas na educação e na realidade do campo que geram debates sobre a organização da sociedade brasileira. Relatos que denunciam políticas governamentais e práticas escolares ainda ‘bancárias’, com isso propõem-se a construir uma escola diferente. Espera-se que essa escola tenha o princípio do trabalho coletivo como norteador da gestão e das práticas pedagógicas.
Agregando conhecimentos
Dentro de uma disciplina de Introdução à educação do campo a professora doutora Maria Antônia busca, através da problematização a respeito da ruralidade do Paraná e do Brasil, refletir, sobre a importância de uma política da educação do campo, tal qual afirmada no Decreto presidencial sob n° 7.352, publicado em 4 de novembro de 2010. Por isso, é fundamental, ao estudar a própria realidade e os textos da Educação do Campo, analisar, também, os documentos oficiais tais como as Diretrizes Operacionais da Educação Básica nas Escolas do Campo, com publicação no ano de 2002; as Diretrizes Nacionais que complementam essa de 2002, que por sua vez foram publicadas em 2008; e também o documento do estado do Paraná, Diretrizes da Educação do Campo, publicado no ano de 2006. Ou seja, a professora, dá ênfase a um conjunto de documentos que permitem a construção de argumentos educacionais e legais para a organização das escolas públicas localizadas no campo.
Não tem sentido desenvolver um trabalho educativo que não seja para ampliar um conjunto de conhecimentos que os alunos já têm, acrescenta. As leituras e problematizações sobre a ruralidade proporcionarão ao professor discussão sobre o Projeto Político Pedagógico (PPP) e políticas locais da Educação do Campo.
De acordo com a professora, Falar em educação do campo é muito mais do que mudar a nomenclatura das escolas. É rever a concepção de educação, de campo e de políticas públicas que orientam as práticas de formação humana. Em síntese, a educação do campo, não se reduz ao espaço escolar, aliás, essa concepção educacional foi criada na experiência coletiva dos movimentos sociais do campo, afirma Maria Antônia de Souza.
Educação Rural, Educação no Campo e Educação do Campo
A professora explica que a terminologia educação rural foi construída historicamente no Brasil, desde o surgimento das primeiras escolas na área rural, no século XIX. Eram escolas isoladas, com professores ‘leigos’, construídas, muitas vezes, em terrenos cedidos por proprietários locais. Tanto nos textos constitucionais do Brasil, quanto na legislação educacional, as escolas rurais não eram prioritárias, embora a sociedade fosse rural. Nos anos de 1920 e 1930, uma corrente conhecida como ‘ruralismo pedagógico’ defendeu uma escola de qualidade para os moradores do campo. Historicamente, os trabalhadores e povos do campo não participavam das decisões sobre a construção de escolas, formação de professores, conteúdos formativos etc. Entretanto, os movimentos sociais atentos à formação humana questionaram a ausência de escolas e do poder público, no campo e na cidade, lutaram pela construção de escolas e pela ampliação do acesso a ela. Todo o século XX foi marcado por lutas populares no campo e na cidade por escolas públicas.
A professora menciona que a ideologia da educação rural nesse contexto é marcadamente urbana. Os livros, a metodologia, os horários das aulas, a gestão da escola, a concepção de rural como lugar do atraso etc. Tudo isso marcou a educação que era voltada para o rural e não pensada pelos povos do campo. A partir dos anos de 1960 chegam ao Brasil as experiências italianas e francesas de educação no campo, a exemplo das Escolas-Família Agrícolas e Casas Familiares Rurais. São experiências que intentam articular a comunidade local com a escola, no desejo de desenvolver uma educação no campo, voltada para o desenvolvimento local.
Segundo a professora, com marco inicial na década de 1990, a educação do campo emerge das experiências coletivas dentro do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, com amplo acúmulo no âmbito pedagógico, com produção de encontros, conferências e materiais bibliográficos sobre a escola, a educação e a formação humana. Os movimentos sociais do campo passaram a refletir sobre a educação e escola que queriam para eles próprios, e que demandariam do poder público, como efetivação de direitos. A essência da educação do campo reside na busca, construção de outro projeto para a sociedade, de dignidade e efetivação dos direitos sociais.
Em síntese, segundo Maria Antônia, trabalhar com a educação do campo É muito mais que mudar a terminologia, implica em problematização da sociedade, da concentração da terra, das contradições sociais. Na escola, implica em discussão e transformação do Projeto Político Pedagógico a partir da articulação das escolas com a comunidade rural, com os povos que ali existem, vivem. A partir daí começa-se a buscar a definição da identidade da escola como sendo do campo e não criada para os povos do campo.



