Tieta do Agreste: o que muda do livro de Jorge Amado para a novela de Aguinaldo Silva

Uma das mais populares obras de Jorge Amado ganhou, em 1989, adaptação na Globo, mas teve versão no cinema rejeitada pelo público

A saga de Antonieta Esteves Cantareli, ou simplesmente Tieta, é um dos mais bem-sucedidos enredos produzidos no Brasil. De autoria de Jorge Amado, o livro “Tieta do Agreste” foi publicado em 1977 e ganhou sua primeira adaptação numa novela da TV Globo, entre 1989 e 1990. 

Aclamada pela crítica e pelo público, a trama tornou-se uma das maiores audiências da história da televisão nacional. Clássica, estreou na plataforma Globoplay no fim de 2020 e por lá também faz sucesso. 

No entanto, o folhetim adaptado por Aguinaldo Silva possui notórias diferenças em relação ao livro – o que não chega a desqualificar nem um nem outro. Entretanto, a versão da história para o cinema, lançada em 1997 com Sônia Braga como protagonista, foi rejeitada pelo público e pela crítica, apesar de ser mais fiel ao romance. 

A sinopse do livro 

O livro “Tieta do Agreste”, na edição da Companhia das Letras. Foto: Juliam Nazaré

É na fictícia Santana do Agreste onde a história se situa. Localizada na região de Mangue Seco, na divisa entre o litoral da Bahia e de Sergipe, a cidade chega aos idos de 1960 parada no tempo. Sem eletricidade, os cidadãos dependem de um desgastado motor a gás, que garante luz ao povo durante um curto período do dia, deixando, às 21 horas, o lugarejo às escuras. O único veículo disponível é uma marinete – antiga denominação de ônibus, que Jorge Amado faz questão de utilizar. Embora velha e desgastada, é o único veículo que consegue concluir o trecho da estrada de chão entre Santana e Esplanada. Os 40 quilômetros, desafiosos pelos portentosos buracos, são concluídos em cerca de 7 horas – trajeto rápido na visão do coronel Artur da Tapitanga.

Diante do recato, a cidade vive à mercê das guardiãs da moral e dos bons costumes. Antonieta é uma adolescente pastora de cabras que, não se assentando aos padrões de vida local, vive em liberdade. Enquanto para a cidade toda a mulher deve preservar-se virgem até o casamento, Tieta ignora os protocolos e leva uma vida de aventuras com amantes. Sua irmã, a encruada beata Perpétua, toma conhecimento dos feitos da mana e denuncia ao pai, o velho Zé Esteves. Tieta acaba enxotada de casa e da cidade e parte para retornar 25 anos depois. Rica e altiva, ela põe à prova a hipocrisia da população que a condenou no passado e que passa a bajulá-la tão somente pela influência e dinheiro da filha pródiga. 

Novela foi produzida para tapar buraco

Tieta compõe, junto de Roque Santeiro (1985) e Vale Tudo (1988), a tríade de novelas de maior audiência da história da teledramaturgia nacional. Porém, o folhetim surgiu em 1989 por um acaso. O horário das 20 horas – hoje 21 – era ocupado por “O Salvador da Pátria”, de Lauro César Muniz. Na reta-final da obra, a então substituta, “Barriga de Aluguel”, de Glória Perez, foi realocada para ir ao ar em 1990 às 18 horas. 

Armando Bogus e Joana Fomm como Modesto Pires e Perpétua, em “Tieta”.
Foto: TV Globo

Para tapar o buraco da programação, Daniel Filho deu a Aguinaldo a missão de adaptar “Tieta do Agreste” em tempo recorde. Os trabalhos começaram há cerca de dois meses da estreia, que aconteceu sem que a cidade cenográfica estivesse totalmente construída.  “Eu havia lido Tieta quando publicado. Achei longo demais, que se Jorge tivesse cortado 150 páginas ficaria ótimo, mas seria muita pretensão querer reescrever Jorge Amado”, revelou o dramaturgo, em seu canal no YouTube. 

Betty Faria, que detinha os direitos da obra para a televisão, estava no ar o “O Salvador da Pátria”. Isso fez com que a personagem Tieta entrasse na 2ª fase da novela apenas no capítulo 19. 

Diferenças entre livro e novela 

O autor Jorge Amado, criador de Tieta do Agreste e seus personagens antológicos
Foto: Reprodução

Aguinaldo também enfatizou que, quando voltar a ler Tieta, já pensando na novela, entendeu que o romance renderia, no máximo, uma minissérie. Diante disso, o autor fez inúmeras alterações no desenvolvimento da história, criando tramas, dando destaque a personagens que no livro são apenas citados e incluindo na obra temas do interesse público dos final dos anos 1980.

Um exemplo disso é a personalidade do coronel Artur da Tapitanga. No livro, ele é um líder político da cidade, sem traços de vilania. Na novela, ele mantém meninas em cárcere privado, entre elas Imaculada, que se rebela contra o velho. 

Além disso, algumas figuras do romance não foram à novela, caso de Barbosinha, poeta da cidadezinha que alimenta paixão por Tieta. Na contramão, Arturzinho, que aparece como filho do coronel Artur na produção televisa, não existe no romance. Astério, por sua vez, chega à TV como Timóteo. 

A volta de Tieta, no livro e no filme, é anunciada com antecedência por carta à família. Na novela, a ilustre figura chega de surpresa, durante a missa de corpo ausente em sua homenagem . Além disso, a protagonista retorna, na versão televisa, disposta a vingar-se de quem lhe fez mal, enquanto na obra original Tieta não nutre esse sentimento. 

Outras curiosidades sobre Tieta e suas versões 

André Valli e Sônia Braga, na versão para o cinema de Tieta do Agreste
Foto: Reprodução

*Em número de páginas, Tieta do Agreste é o livro mais extenso de Jorge Amado. A edição da Companhia das Letras tem 640 páginas. 

*Protagonista da novela, Betty Faria era a preferida do público para interpretar Tieta no cinema, mas acabou preterida por Sônia Braga, dona dos direitos sobre a obra para as telonas. As consagradas atrizes, inclusive, romperam relações por conta de Tieta. 

*Tieta foi mais uma das novelas ambientadas na Bahia que ignorou a presença maciça de negros no estado. Na TV, os personagens, em vez de negros e mulatos, como descreve Jorge Amado boa parte dos santanenses, eram em sua maioria brancos. A mesma situação foi notada em outra produção da Globo: “Porto dos Milagres” (2001). Novamente assinada por Aguinaldo Silva, trata-se de uma adaptação de duas obras de Jorge Amado: “A descoberta da América pelos turcos” e “Mar Morto”.