Juros fecham em alta com receios sobre inflação, pressão do câmbio e risco fiscal

Por Estadão Conteúdo Os juros fecharam em alta, mas mais pronunciada nos vértices longos, em meio à pressão do câmbio,

Por Estadão Conteúdo

Os juros fecharam em alta, mas mais pronunciada nos vértices longos, em meio à pressão do câmbio, das preocupações com a inflação e com o cenário fiscal, em um dia negativo para ativos de risco em geral. As taxas acompanharam de perto o ritmo do dólar pela manhã, mas à tarde, quando a moeda se acomodou abaixo dos R$ 5,35, a curva não seguiu pari passu, com o surgimento das operações já relacionadas ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto na quarta-feira e alguma antecipação ao leilão de prefixados na quinta-feira.

Nesse contexto, o mercado mantém as apostas de elevação da Selic já a partir do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 2,83%, de 2,743% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 3,903% para 4,04%. O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 5,84%, de 5,694%, e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 6,643% para 6,79%.

Nas mesas de renda fixa, profissionais afirmam que a curva está pressionada por um conjunto de fatores, o que recomenda ficar comprado em NTN-B e também no DI. “Não é só o dólar. O mercado de juros tem uma poluição enorme e 'n' coisas pesando, como a proposta do Orçamento sem o Renda Brasil, a questão do veto à desoneração da folha, a retomada de discussão da tributária”, enumerou o sócio-gestor da LAIC-HFM, Vitor Carvalho.

O quadro fiscal incerto, que vem afetando a curva uns dias mais outros menos, se mantém como preocupação constante do mercado, que agora colocou de vez no radar outro risco importante, o inflacionário. A safra recente de IGPs vem surpreendendo negativamente e não se sabe até quando os IPCs continuarão, de certa forma, blindados do contágio.

“A inflação não dá trégua e a discussão sobre a divergência entre IGP e IPC continua. Tivemos o IGP-DI hoje bem pressionado e o mercado observando as coletas de IPCA na ponta”, disse Carvalho.

Na véspera da divulgação do IPCA, o IGP-DI de agosto, que disparou de 2,34% em julho para 3,87%, superando com folga o teto das estimativas (3,30%), reforçou o desconforto. Para o índice de agosto, que sai ma sexta, as estimativas captadas pelo Projeções Broadcast vão de 0,16% a 0,33%, com mediana em 0,25%, que representaria a maior taxa para o mês desde 2016, quando o avançou 0,44%.

Uma das maiores pressões deve vir de Alimentação, justamente em meio ao salto recente nos preços de commodities agrícolas.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse nesta terça que o governo não fará nenhum tipo de intervenção nos preços da cesta básica brasileira. Desse modo, o governo busca outras alternativas. Nesta quarta-feira, haverá uma reunião da presidência da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) com a equipe econômica justamente para discutir a elevação dos preços de produtos básicos. Na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro disse que pediu ao setor “patriotismo” e “sacrifício” nas margens de lucros para reduzir a pressão nos preços.

Dólar

O dólar reduziu o ritmo de valorização ante o real nos negócios da tarde, refletindo no mercado doméstico perda de força no exterior. Nesta terça-feira, o peso determinante para os ativos brasileiros foi o mercado internacional, com novo dia de fuga de ativos de risco e correção nas bolsas americanas, contando nesta tarde também com forte queda do petróleo, que superou os 8%. Com a agenda local esvaziada, o real foi a moeda com pior desempenho ante o dólar em uma cesta de 34 moedas, segundo operadores, ainda refletindo o risco de descontrole fiscal do Brasil.

Após superar os R$ 5,40 nos negócios da manhã, o dólar à vista fechou o dia com valorização de 1,77%, cotado em R$ 5,3650. No mercado futuro, o dólar para outubro subia 1,21%, em R$ 5,3680 às 17 horas.

O diretor de moedas em Nova York da gestora BK Asset Management, Boris Schlossberg, observa que a piora da tensão entre Estados Unidos e China provocou forte movimento de aversão ao risco nesta terça, fortalecendo o dólar de forma generalizada. A deterioração da já complicada relação entre as duas maiores economias do mundo veio após Donald Trump sugerir no domingo que o país não faça mais negócios com Pequim, em suas próprias palavras, um “descolamento”.

A leitura dos investidores, ressalta Schlossberg, é que o setor de tecnologia seria o mais afetado no cenário traçado por Trump. Por isso, as gigantes do setor, que dispararam nas últimas semanas, lideraram as quedas nesta terça.

Para ajudar a fortalecer o dólar, o executivo observa que a libra teve novo dia de enfraquecimento, após as ameaças do primeiro-ministro Boris Johnson de deixar as negociações do Brexit.

Com a agenda esvaziada de indicadores e eventos mais fraca nos EUA nos próximos dias, ele avalia que o dólar deve seguir influenciado por declarações políticas e eventualmente alguma notícia sobre o covid.

Sobre a questão fiscal do Brasil, os analistas da agência de classificação de risco Moody's elogiaram as políticas do governo para enfrentar os efeitos econômicos da pandemia, mas disseram que o custo fiscal foi mais alto que o esperado, com piora sem precedentes dos indicadores. A agência alertou que a dinâmica política traz riscos ao ajuste fiscal e as reformas para estimular o crescimento econômico, podendo ter peso negativo no rating soberano do País.

Já a Fitch Ratings prevê que o dólar vai continuar acima de R$ 5 ao menos até o final do ano que vem, com R$ 5,30 em dezembro agora e R$ 5,00 no fim de 2021. A agência comentou que o Banco Central injetou US$ 20 bilhões somente no mercado à vista para conter a sangria do real. Ao mesmo tempo, alguns indicadores da atividade têm surpreendido positivamente e a previsão de desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil foi revisto de queda de 7% para baixa de 5,8%.

Bolsa

O Ibovespa estacionou um pouco acima dos 100 mil pontos nesta retomada de negócios pós-feriado no Brasil e nos EUA, com os índices de Nova York em correção pela terceira sessão consecutiva, tendo o Nasdaq mais uma vez a liderança do movimento, em queda de 4,11% no encerramento desta terça-feira. Na B3, a perda foi bem mais moderada, de 1,18%, a 100.050,43 pontos, o pior nível de fechamento deste começo de setembro, em sessão na qual o índice oscilou entre mínima de 99.372,98 e máxima de 101.239,34 pontos, com giro a R$ 24,7 bilhões, após duas sessões em que ficou acima de R$ 30 bilhões, na quinta e sexta-feira. Em setembro, o Ibovespa avança 0,69%, com perdas no ano a 13,49%.

Em dia de forte ajuste nas cotações do petróleo (WTI -7,57% e Brent -5,31%, ambas as referências cotadas abaixo de US$ 40 por barril), as ações da Petrobras estiveram entre as mais punidas durante a sessão, embora tendo moderado as perdas perto do encerramento, em queda de 2,88% para a PN e de 3,47% para a ON no fechamento – as perdas da ON, durante a sessão, chegaram a ser superadas apenas pelas da PetroRio, em queda de 6,08% em sua estreia, nesta terça, na carteira Ibovespa. No lado oposto, Azul fechou em alta de 6,79%, seguida por Localiza (+5,87%) e Iguatemi (+4,55%).

Acompanhando o movimento em mais um dia de forte ajuste na Nasdaq, parte das ações das empresas de varejo eletrônico na B3, que acumulam sólidos ganhos no ano, também seguiu em terreno negativo nesta sessão, especialmente Via Varejo, em queda de 3,97% no fechamento – segunda maior perda da carteira Ibovespa na sessão -, enquanto Lojas Americanas subiu 0,42% e Magazine Luiza teve ajuste mais contido, em baixa de 1,22% no encerramento.

“A observar a correção na Nasdaq, é de se pensar que um movimento de reavaliação do varejo eletrônico, um dos que mais avançaram neste ano, possa ocorrer também na B3, com alguma rotação para o comércio tradicional, de tijolo”, diz Shin Lai, estrategista-chefe da Upside Investor Research. “Nasdaq é um caso a parte por estar extremamente esticado, com empresas cotadas na casa de trilhões de dólares, embutindo, em casos como o da Amazon, expectativa de crescimento de 20% a 30% no longo prazo. Qualquer coisa exponencial fica absurda”, acrescenta o estrategista.

“Embora seja difícil estabelecer se temos agora algo pontual ou não, o ajuste em andamento tem semelhanças com o estouro da bolha de tecnologia, na virada dos anos 90 para os 2000, que demorou anos para ser revertido. Temos um movimento de grandes investidores se desfazendo de posições, e, por seu tamanho, acaba levando o mercado junto”, conclui Shin, chamando atenção também para a volatilidade que costuma prevalecer em meio a períodos eleitorais nos EUA marcados por incertezas, como o atual.

No contexto mais amplo, “as manchetes apontam para nova ebulição das tensões entre EUA e China”, aponta em nota Edward Moya, analista de mercado da OANDA em Nova York. “O governo Trump anunciou a proibição das importações de três empresas chinesas e sinalizou que mais seis poderiam ser visadas, enquanto tentam reprimir as acusações de trabalho forçado”, observa. “Ontem, o presidente Trump sugeriu 'desacoplar' a economia dos EUA da China e reiterou tarifas massivas dos EUA”, acrescenta o analista, referindo-se também à percepção do mercado, antes das eleições, de que não haverá “águas comerciais calmas”, na medida em que Trump “não está abrandando a retórica dura, mesmo com a continuação da liquidação no mercado de ações.”