Cemitério municipal preserva a história de Laranjeiras do Sul

Túmulos antigos, personagens históricos e tradições fazem do espaço um registro da memória do município

A história de uma cidade também está guardada nos lugares onde repousam aqueles que ajudaram a construí-la. Em Laranjeiras do Sul, o Cemitério Municipal reúne parte dessa trajetória, preservando nomes de antigos moradores, lideranças políticas, profissionais e famílias que marcaram o desenvolvimento do município.

A história dos espaços de sepultamento da região é anterior à própria formação urbana. Um exemplo é o antigo Cemitério dos Nogueiras, no interior do município, ligado aos primeiros moradores da localidade. Com o crescimento de Laranjeiras, especialmente a partir da década de 1940 e da emancipação municipal, em 1946, o cemitério atual passou a reunir gerações de moradores e diferentes registros da história local.

Para conhecer um pouco mais dessa memória, o Jornal Correio do Povo do Paraná conversou com José Domiciano, que há 16 anos acompanha a rotina do Cemitério Municipal. Além de cuidar do espaço, ele conhece histórias de personalidades sepultadas no local, acompanha as mudanças na estrutura e observa as transformações nos costumes das famílias.

Personagens e arquiteturas que contam histórias

Entre os nomes conhecidos que estão sepultados no cemitério está o médico Carmosino Vieira Branco, lembrado como o “pai dos pobres”. Sua capela chama a atenção pelo formato de avião. Também estão no local antigos prefeitos, como Alcindo Natel de Camargo e Amandio Ziguer Babinski, além Silmar Camargo, José Lúcio dos Santos e o historiador João Olivir Camargo.

As construções também revelam diferentes épocas e estilos. Há capelas de granito e mármore, jazigos com características próprias e túmulos antigos que permanecem preservados pelo valor histórico e afetivo.

“Temos túmulos aqui que chamam atenção, capelas de granito, capelas em mármore, jazidos com a estética diferente e também aqueles túmulos antigos que chamam atenção pela sua arquitetura. Muitas pessoas não demolem o túmulo porque tem uma história ali”, conta José.

Ele considera que cada construção representa uma parte da identidade local. “Eu sempre falo que cemitério é um cartão-postal de nossa cidade. Cada espaço que vai no cemitério tem uma obra diferente, um túmulo diferente, uma capela diferente, uma arquitetura diferente.”

Mudanças na estrutura e nas tradições

Desde que começou a trabalhar no local, em 2013, José também acompanhou melhorias na estrutura. Ele lembra que encontrou o espaço tomado por mato e entulho. Segundo seu relato, somente naquele ano foram retiradas mais de 50 toneladas de resíduos do interior do cemitério.

“Claro que mudou muito, porque quando nós chegamos aqui, o cemitério era tomado por mato, entulho. Só em 2013, na gestão da dona Sirlene Svartz, mais de 50 toneladas de entulho nós tiramos daqui de dentro do cemitério”, recorda.

Outra transformação percebida por ele está na maneira como as famílias vivem o Dia de Finados. Antigamente, muitos visitantes permaneciam por mais tempo junto aos túmulos, rezando o terço e relembrando os entes queridos. Atualmente, as visitas costumam ser mais rápidas, com flores, velas e orações.

“Hoje já é mais rápido. A pessoa traz uma flor, acende uma vela, reza um Pai-Nosso e vai embora. Não fica aquele tempo todo como era antigamente. Mas tem muitas pessoas de idade que vem aqui e ainda mantém firme as tradições do passado”, observa.

Ao longo dos 16 anos, entretanto, foram as experiências humanas que mais marcaram José. Ele recorda especialmente o período da pandemia, quando as restrições impediram muitas famílias de se despedirem de seus entes queridos da maneira que gostariam.

“O momento mais crucial que nós passamos foi na época da pandemia, quando as pessoas não podiam chegar perto dos seus entes queridos que estavam falecidos. Pessoas angustiadas, porque o velório tinha que ser rápido. A dor era muito grande e nós passamos junto com a comunidade toda essa tristeza”, relata.

A perda de crianças também está entre as situações mais difíceis de acompanhar. “A dor é muito grande dos pais, dos amigos, dos avós. E a gente sente. Muitas vezes a gente tem que se esconder para chorar”, conta.

Para José, cuidar do cemitério vai muito além de uma atividade profissional. É uma missão que envolve acolher famílias, oferecer uma palavra amiga e estar presente nos momentos mais difíceis. “A gente está aqui porque é um projeto de Deus, é uma missão que a gente tem, porque não é um trabalho, é uma missão e eu quero cumprir até quando Deus permitir”, conclui.

Entre personagens históricos, construções que atravessaram gerações e histórias de famílias, o Cemitério Municipal permanece como um espaço de memória e sentimentos de Laranjeiras.