Cacique de Rio das Cobras dá versão sobre ocorrido com a PRF

Ângelo Rufino afirma que suposta distorção dos acontecimentos tem prejudicado a imagem da comunidade

No dia 16 de novembro, um embate entre forças indígenas e a Polícia Rodoviária Federal (PRF), às margens da BR-277, em Nova Laranjeiras, chamou a atenção. Uma parcela da comunidade nativa, armada de facões, confrontou os policiais e confiscou uma viatura. Após interdição da pista e apedrejamento das viaturas pelos indígenas, a PRF conseguiu contornar a situação. 


A versão da PRF
Segundo a Polícia, a revolta dos indígenas foi uma consequência de um acidente entre um caminhão carregado com peças automotivas e uma van que resultou na morte do motorista desta, ocorrido em 11 de novembro. 
Naquela ocasião, para saquear a carga, alguns indígenas pisotearam o cadáver, que estava estendido na rodovia, e também agrediram a pedradas policiais que cobriam a ocorrência. Quatro envolvidos foram presos. Ainda assim, foi o estopim para que uma revolta tomasse corpo, principalmente na internet, contra os nativos.
Segundo a PRF, o ato seria uma consequência das prisões em razão do saqueamento. A versão é contestada pela liderança indígena. 


A versão do cacique 
O Correio do Povo do Paraná foi até a sede da Território Indígena de Rio das Cobras e conversou com exclusividade com o cacique Ângelo Rufino, de 40 anos. Ele é o responsável pela comunidade que, dividida em 11 aldeias, agrega 960 famílias e 3,9 mil nativos. 
Na visão de Ângelo, o que se viu depois ventilado na internet foi uma distorção dos fatos. “Quem fez coisas erradas no dia 11 está preso. A comunidade indígena não apoia esses atos e estamos sempre fazendo reuniões, buscando combater esses saques. Isso vem sendo trabalhado há anos nas aldeias. Só que, assim como na sociedade dos não-indígenas existem pessoas que atuam fora das leis, aqui também há”. 
Ângelo diz que, dentro da aldeia, existem autoridades responsáveis pela segurança e o combate ao crime, mas que a extensão do território e a falta de recursos impede uma ação efetiva. “Temos seguranças que fazem a ronda a pé na estrada da PR-473, mas na BR-277 isso é difícil, por ser uma estrada mais longa”, justifica. São mais de 10 quilômetros de território do Rio das Cobras cortados pela principal rodovia paranaense. 
Conforme o cacique, a forma como essas situações têm sido interpretadas pela sociedade contribuem para uma generalização na visão do índio como um bárbaro. “Todos estamos sendo afetados. Algumas pessoas acham que a comunidade toda se beneficia desses crimes. E não é verdade”.
Na versão do líder, a revolta do dia 16 foi motivada após a PRF perseguir um nativo que conduzia uma motocicleta na 277. Após colidir com a viatura, o homem foi jogado longe, ferindo-se. “Os policiais não prestaram socorro e tentaram deixar o local. A comunidade assistiu a tudo e foi para cima deles. A Polícia tentava sair e alguns indígenas confiscaram a viatura. Agiram como familiares. Você ficaria sem ação se fizesse isso com um parente seu? Tudo o que depois se desencadeou não foi protesto contra a prisão de quem se envolveu no caso do pisoteamento do motorista morto”. 
Ângelo acredita que um dos motivos para os policiais perseguirem o motoqueiro pode ter sido a velocidade alta, já que naquele dia havia blitz. 
“Gostaria que a população da região nos olhasse de forma diferente, pois não somos da forma como estão dizendo. Estamos sendo perseguidos. Por causa desses acontecimentos, nossos parentes não estão podendo sair para outras regiões, como Cascavel e Curitiba, para vender artesanato. Se algum de nós entrar num mercado, já ficam de olho: olha ali, um indígena”. 
Em virtude da versão defendida pelo cacique  Ângelo Rufino, o Correio buscou ouvir a PRF. Após contato com a assessoria estadual, fomos encaminhados para a cúpula do órgão, em Brasília. Assim que houver a manifestação da entidade, divulgaremos.