‘A vida na boleia’

Um ano após explodirem no Brasil inteiro com a música ‘É o amor’, a dupla Zezé di Camargo e Luciano lançava o seu segundo LP, em 1992.

O trabalho que continha 12 faixas e tinha como destaque ‘Coração está em pedaços’ e ‘Muda de vida’, vendeu mais de dois milhões de cópias e também se tornou sucesso absoluto no país. Os irmãos do interior de Goiás estavam na boca do povo.

Mas lá no meio deste mesmo LP, entre uma música e outra, tinha uma que também era bem especial. E tem tudo a ver com esse 30 de junho, Dia do Caminhoneiro.

‘Voando Sem Asas’, de autoria de Joel Marques, é mais que uma simples canção. É um resumo perfeito da vida de caminhoneiro, como mostra o refrão.

 

A carreta carregada

Vai deslizando, rasgando o chão

Vou, vou voando sem asa

Com a saudade de casa rasgando dentro do coração

 

É com a carreta carregada e com saudade de casa, que esses profissionais dedicam a sua vida cortando as estradas pelo país à fora. E eles são muitos, já que o transporte rodoviário ainda é o principal modo de deslocamento de carga utilizado no Brasil.

Um deles é Leandro César, caminhoneiro que começou no ofício, da paixão que herdou da família. Meu pai e meus irmãos são caminhoneiros, então cresci já aprendendo tudo com eles. Nunca pensei em ser outra coisa na vida, comenta.

Há 10 anos rodando pelo Brasil, ele carrega veículos de ferro velho. Atualmente estou fazendo a rota Curitiba-Foz do Iguaçu. Saio de casa ainda de madrugada e passo o dia ‘rodando’, declara.

Vantagens e dificuldades

Assim como em qualquer profissão, ele destaca as vantagens que tem por viver no caminhão. A melhor coisa, sem dúvida alguma é conhecer o Brasil. Em uma rota ou outra, as vezes a gente estaciona o caminhão e aproveita a paisagem e os lugares por onde passamos, afirma. Além disso, eu adoro dirigir e aproveitar as estradas, afirma.

Por outro lado, também existem as dificuldades. A principal delas é o pouco tempo com a família. Tenho uma filha pequena, de três anos, e não estou podendo ver ela crescer, o que dói no peito, diz, completando que sempre quando pode, telefona para saber notícias e matar um pouco da saudade.

O caminhoneiro também lista as condições das estradas como um dos maiores obstáculos. Aqui em Laranjeiras ainda é melhor do que o do restante do caminho. Mas tem muito trecho ruim ao longo do caminho, explica.

De ponta a ponta

3.284 quilômetros. Essa é a distância percorrida por sêo Adenor Pedro dos Santos, que mora em Santo Bento, na Paraíba, mas que todo o mês tem que ir até Cascavel e alguns municípios da Cantuquiriguaçu, deixar a mercadoria produzida no nordeste.

Dependendo do clima, das condições do trajeto, do caminhão, ou de qualquer outro fator que venha a atrapalhar, a viagem de ida e volta pode demorar até umas duas semanas. São dias e mais dias na estrada. Já estou acostumado. O caminhão virou minha casa, comenta.

Como diz a letra de Zezé di Camargo e Luciano, é assim que eles vão levando a vida adiante. É difícil. A gente come mal, dorme mal, mas mesmo assim não consegue abandonar o caminhão. Essa é a nossa vida na boleia, finaliza.

 

VOANDO SEM ASA – Zezé di Camargo e Luciano

Meu amor arrumou a minha mala

Boto o caminhão na estrada

Outra vez vou viajar

É assim minha vida de estradeiro

Sou mais um caminhoneiro

Sem ter tempo de parar

Hoje aqui, amanhã não sei aonde

Mas por onde quer que eu ande

É tão forte essa paixão

Que me leva por aí cortando o asfalto

Deus me guia lá do alto

E eu guio o caminhão

 

Vou, vou pela estrada

A carreta carregada

Vai deslizando, rasgando o chão

Vou, vou voando sem asa

Com a saudade de casa rasgando dentro do coração

 

Chuva e sol, dia e noite

Eu vou seguindo

Tô chegando, tô partindo

Nunca perco a direção

No amor de quem fica me esperando

Sempre vai me acompanhando

Onde vai meu caminhão

 

E assim vou levando a vida adiante

Uma paixão é o volante

Meu amor, outra paixão

Viajando lá vou eu nas madrugadas

Como uma fera na estrada

E um anjo no coração