“Doutor, é câncer?”

Trabalhando há 30 anos com pacientes portadores de câncer, o urologista dr.
Lísias Nogueira Castilho decidiu usar sua experiência para ajudar doentes e
familiares a encarar a doença de forma mais tranquila. Para isso, escreveu
o livro Doutor, é câncer. O autor traz informações essenciais sobre a
doença, como pode ser desenvolvida, quais os tipos de câncer mais comuns e
quais as opções de tratamento que existem atualmente.
Um dos
diferenciais, no entanto, é a orientação à família do paciente
diagnosticado com câncer. De acordo com o autor, é de suma importância
manter o paciente integrado em seu grupo social, com a constante presença
de familiares e amigos. O isolamento pelo qual os pacientes passam –
às vezes por conta de um distanciamento a que eles mesmos se impõem, às
vezes por conta da ignorância de pessoas que acreditam que câncer seja
contagioso e não querem ficar perto de um doente, ou até mesmo por conta da
política hospitalar que coloca o paciente sozinho em um quarto de UTI – é
extremamente prejudicial.
O Jornal Correio fez algumas perguntas ao
Doutor Lísias. Confira a entrevista:

Jornal Correio- Como descobrir o câncer antes
que seja tarde?

Dr. Lísias
Fazendo o que se chama de Medicina Preventiva. A busca ativa de
tumores, dentro de cada faixa etária, de acordo com o sexo, pretende
identificar o câncer no seu início, antes que seja tarde. Dois exemplos
simples: 1- Pesquisa do câncer de mama por meio de mamografia e palpação
cuidadosa em toda mulher a partir dos 40 anos; 2 – Pesquisa do câncer de
próstata por meio de toque retal e dosagem de PSA (exame de sangue) em todo
homem com 45 anos de idade ou mais.

JC- Quem aceita melhor a notícia: o paciente ou os
familiares?

Dr. Lísias – Ninguém
aceita bem a notícia do câncer, mas talvez o pior cenário seja o do câncer
em crianças e adolescentes, situação em que os pais e avós ficam de modo
geral muito desconcertados.

JC- O modo de vida da pessoa tem alguma ligação com o
fato dela desenvolver a doença?

Dr. Lísias – O estilo de vida tem tudo a ver com o câncer.
Alguns exemplos são de conhecimento popular: quem toma sol de modo
irresponsável tem uma tendência a ter câncer de pele, quem fuma tem a
tendência a desenvolver câncer de pulmão, bexiga, boca, etc. Outro exemplo
não tão conhecido, mas muito significativo atualmente: a obesidade pode
desencadear câncer de rim, de próstata, de intestino grosso e de mama,
entre outros. Uma vez que o sobrepeso e a obesidade são hoje um problema
sério de Saúde Pública, este fato se torna ainda mais importante no Brasil.

JC – É
possível evitar o câncer?

Dr. Lísias
Todo câncer tem uma base genética, mas pode ser evitado até certo
ponto. Uma alimentação correta desde a infância, o combate à obesidade
(inclusive a obesidade infantil), o cuidado para se tomar sol desde a
infância, a abstinência do cigarro, o combate ao alcoolismo, a prevenção
das doenças sexualmente transmissíveis, etc. Tudo isso tem a ver com a
prevenção do câncer. Isoladamente, o combate ao cigarro é o mais importante
de todos.

JC-  Qual o tipo de câncer com mais casos no
Brasil?

Dr. Lísias – O câncer
de pele acometerá cerca de 150 mil brasileiros em 2011 e é o mais
importante numericamente, assim como em outros países tropicais. Isso
representa um pouco menos de 1/3 de todos os novos casos de câncer que
serão diagnosticados neste ano, segundo estimativas do INCA (Instituto
Nacional do Câncer).

JC – Há quanto tempo o Doutor trabalha com pacientes com
câncer?

Dr. Lísias – Desde
que me formei, há mais de 30 anos. Como urologista, lido com o câncer todos
os dias: de próstata, de rim, de bexiga, de pênis, de adrenal e outros.

JC- 
Todas as pessoas nascem com as células cancerígenas e ao longo dos anos
elas se desenvolvem de forma maléfica? Ou como se adquire o
câncer?

Dr. Lísias – Todo
câncer tem uma base genética e há diversas formas de câncer que se
desenvolvem no feto, antes de ele nascer. Alguns recém-nascidos já
apresentam câncer. Na maioria das pessoas, todavia, o câncer aparece
depois, na infância, na adolescência ou na vida adulta. A maior parte dos
pacientes que têm câncer já passaram da meia-idade, no mundo todo. Isso
decorre de uma combinação do enfraquecimento da imunidade que vem com o
envelhecimento, da herança genética e do estilo de vida.