Estilos de alimentação
Os estilos de alimentação referem-se ao padrão interacional de comportamentos entre cuidadores e crianças que ocorre durante a alimentação. Tal como outros comportamentos parentais, os estilos de alimentação estão incluídos em dimensões de estrutura e de criação. Há quatro estilos de alimentação incluídos nessas duas dimensões: sensível/ responsivo, controlador, tolerante e negligente.
Um estilo sensível/responsivo em relação à alimentação, muito protetor e estruturado, caracteriza cuidadores que estabelecem uma relação com a criança que envolve solicitações claras e interpretação recíproca de sinais e de pedidos na interação durante as refeições.
A responsividade em si mesma pode ser ou não sensível – por exemplo, gritar com um bebê em resposta a uma recusa de alimento –, ao passo que a responsividade sensível refere-se a comportamentos interativos caracterizados por disponibilidade emocional, respostas casuais adequadas ao nível de desenvolvimento e consistentes com a sinalização da criança, e alternância fácil no processo de dar e receber.
O estilo sensível/responsivo deriva do estilo autoritativo de comportamento parental.
Um estilo controlador em relação à alimentação, muito estruturado e pouco protetor, caracteriza cuidadores que utilizam estratégias exigentes ou restritivas para controlar as refeições.
Estilos controladores em relação à alimentação estão contidos em um padrão geral de cuidados parentais autoritários e incluem comportamentos de superestimulação – como a mãe que tenta obter a atenção da criança falando alto, forçando a ingestão do alimento ou dominando a criança de outras formas.18 Pesquisas observacionais demonstraram que bebês e crianças que têm cuidadores superestimuladores apresentam estresse e/ou esquiva-se da alimentação.
Em meio a crianças em idade pré-escolar, técnicas rigorosas e restritivas são muitas vezes contraproducentes: crianças que são pressionadas a comer mais frutas, legumes e verduras não o fazem, e crianças cujos cuidadores utilizam práticas restritivas de alimentação tendem a comer excessivamente. Quando as famílias são controladoras, principalmente em relação à alimentação, podem desconsiderar as sinalizações internas que regulam a fome e a saciedade dos filhos.
A capacidade inata dos bebês de autorregular sua ingestão energética diminui no decorrer da primeira infância em resposta a padrões familiares e culturais. Embora os mecanismos que orientam mudanças de regulação ainda não sejam inteiramente claros, quando cuidadores não consideram os processos de regulação de seus filhos, a ingestão de alimentos pode ocorrer na ausência de fome, o que, por sua vez, está associada a rápido ganho de peso e obesidade infantil.
Um estilo tolerante em relação à alimentação, muito protetor e pouco estruturado, está incluído em um estilo geral de cuidados parentais tolerantes, e ocorre quando os cuidadores permitem que as crianças tomem decisões sobre as refeições – como resolver quando e o que vão comer.
Sem a orientação dos pais, as crianças tendem a ser atraídas por alimentos com alto teor de sal ou de açúcar, e não por uma variedade mais equilibrada de alimentos, inclusive legumes e verduras. Desse modo, um estilo de alimentação tolerante pode ser problemático, tendo em vista as predisposições genéticas dos bebês para preferir sabores doces e salgados. Foi demonstrado que crianças cujos cuidadores apresentam um estilo de alimentação tolerante são mais pesadas do que aquelas cujos cuidadores não utilizam esse estilo.
Um estilo negligente em relação à alimentação, pouco protetor e pouco estruturado, caracteriza frequentemente cuidadores que possuem conhecimentos limitados e que se envolvem pouco com o comportamento de seus filhos durante a refeição. Esses estilos podem ser caracterizados por pouca ou nenhuma ajuda física ou verbalização durante a refeição, falta de reciprocidade entre cuidador e criança, ambiente de alimentação negativo e ausência de estrutura ou de rotina de alimentação.
Esses cuidadores frequentemente ignoram as recomendações de alimentação para seus filhos pequenos e as sinalizações de fome e saciedade dadas por eles, e podem estar pouco atentos àquilo que seu filho está comendo ou ao momento em que a alimentação ocorre. Egeland e Sroufe constataram que crianças cujos cuidadores são indiferentes ou não estão psicologicamente disponíveis estavam mais propensos a apresentar atitudes ansiosas de apego quando comparadas a crianças cujos cuidadores estavam mais disponíveis. Um estilo negligente em relação à alimentação está incluído em um estilo geral negligente de cuidados parentais.
Costanzo e Woody propõem um modelo de estilos de cuidados parentais específicos para cada domínio, no qual o comportamento parental varia conforme a situação. Propõem que cuidadores podem ser sensíveis e responsivos em um contexto ou domínio – por exemplo, durante brincadeiras –, mas não necessariamente em todos os domínios.
Por exemplo, se os cuidadores percebem que seu filho tem um problema alimentar, talvez sejam controladores durante a alimentação. Nossa pesquisa encontrou apoio parcial para a especificidade de domínios quando aplicada ao comportamento controlador dos pais. Embora os cuidados parentais tenham se mostrado consistentes nos domínios de alimentação e brincadeiras, o controle parental foi consistentemente mais alto durante a alimentação do que durante brincadeiras.
Faith et al revisaram estudos que analisavam estilos de alimentação. A maioria deles foi transversal e mediu os estilos de alimentação utilizando relatos dos pais. Os poucos estudos que utilizaram medidas observacionais focalizaram o comportamento alimentar da criança – por exemplo, mordidas, recusa de alimento etc. – e comportamentos parentais – por exemplo, oferecer comida, encorajar o ato de comer – em amostras relativamente pequenas de crianças, e não focalizaram a qualidade do relacionamento em termos gerais.
O resultado mais comum mostrou que cuidadores restritivos tinham filhos pesados. No entanto, uma vez que a maioria dos estudos foi transversal, não fica claro se os cuidadores reagiam ao excesso de peso da criança tentando restringir sua ingestão de alimentos ou se as crianças reagiam às restrições dos pais comendo em excesso.
Sabe-se pouco sobre estilos de alimentação no início da vida, quando as crianças estão sendo socializadas em relação à refeição familiar. Embora os ambientes familiares influenciem o comportamento alimentar das crianças – o que inclui tipos de alimentos oferecidos (composição da dieta, texturas e sabores diferentes), estilos de alimentação e modelos oferecidos em relação a comportamentos alimentares adequados e inadequados –, as correlações entre estilos de alimentação e ganho de peso, comportamento e desenvolvimento das crianças ainda não foram bem analisadas e os dados existentes continuam controversos.



