Ana Paula de Carvalho relata desafios do autismo na vida adulta
Psicóloga descreve experiência com diagnóstico tardio e destaca a importância da informação, da identificação adequada e do acolhimento
Abril é marcado pela conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), período voltado à ampliação do debate, à redução do preconceito e ao fortalecimento da informação. Dentro desse contexto, o Jornal Correio do Povo do Paraná traz relatos que evidenciam diferentes realidades relacionadas ao espectro, incluindo o diagnóstico na vida adulta.
Em entrevista exclusiva, a psicóloga infantil Ana Paula de Carvalho compartilha sua experiência com a descoberta tardia do autismo, condição que, segundo ela, trouxe respostas para questões vividas ao longo da vida.
Diagnóstico trouxe alívio
O processo até a confirmação do diagnóstico não foi imediato. Inicialmente, Ana Paula recebeu outra hipótese diagnóstica, em um momento pessoal delicado, o que influenciou a avaliação.
Meses depois, ao buscar uma nova profissional, teve o diagnóstico de TEA confirmado. “Foi libertador, foi um alívio, porque tudo começou a fazer sentido depois que eu recebi o laudo”, afirma.
A psicóloga relata que a descoberta permitiu compreender comportamentos e dificuldades antes não explicados. “Eu entendi que não estava ficando louca e que estava tudo bem me aceitar assim”, diz.
Aceitação e exposição
Apesar do impacto positivo, o processo de aceitação levou tempo. Segundo Ana Paula, foram necessários cerca de 12 meses até conseguir falar abertamente sobre o diagnóstico, inclusive no ambiente profissional. “Eu tinha muito medo do preconceito, principalmente por ser psicóloga e atender crianças autistas”, relata.
Após tornar a informação pública, a reação foi diferente do esperado. “Foi libertador poder falar sobre isso. Houve acolhimento e as famílias passaram a confiar ainda mais no meu trabalho”, afirma.
Sinais desde a infância
Ao revisitar a própria trajetória, Ana Paula identifica características presentes desde a infância, como rigidez comportamental, dificuldade em manter amizades e crises de ansiedade. “Eu fazia amizade fácil, mas não conseguia manter. Queria tudo do meu jeito e isso dificultava”, relembra.
Ela também aponta dificuldades no período escolar, especialmente em disciplinas que não despertavam interesse. “Eu tinha muita dificuldade em algumas matérias, mas nas que eu gostava, eu ia bem”, afirma.
Na época, no entanto, não houve diagnóstico. “Sabiam que eu tinha algo, mas não conseguiam identificar o que era”, explica.
Impactos na vida profissional
O diagnóstico também trouxe reflexos na carreira. Inicialmente, a psicóloga evitou compartilhar a informação com pacientes e familiares, temendo rejeição. “Eu tinha medo de que os pais não aceitassem ou tirassem as crianças”, afirma.
Com o tempo, o retorno foi positivo. “Foi ao contrário do que eu imaginava. As famílias confiaram mais”, relata.
Segundo ela, a vivência pessoal passou a contribuir para a atuação clínica, especialmente no atendimento a meninas, que frequentemente recebem diagnóstico tardio.
Desafios e orientação
Mesmo com avanços na conscientização, Ana Paula aponta que ainda há dificuldade de compreensão sobre o autismo em adultos. “Às vezes, as pessoas não entendem por que eu preciso me isolar ou ter um tempo para me regular”, explica.
Ela também destaca o desgaste emocional relacionado à adaptação constante. “A gente consegue camuflar muito bem, mas isso gera uma exaustão muito grande”, afirma.
A psicóloga orienta que pessoas com suspeita busquem avaliação especializada. “Não é normal sofrer assim. Buscar ajuda faz diferença”, conclui.
O diagnóstico tardio de autismo tem ganhado maior visibilidade nos últimos anos, especialmente entre mulheres, grupo em que os sinais podem ser menos evidentes ao longo da vida. Especialistas apontam que o acesso à informação e à avaliação adequada é fundamental para ampliar a identificação dos casos e garantir acompanhamento adequado em diferentes fases da vida.



