Línguas de sinais reforçam inclusão, identidade e diversidade
Em entrevista, Luiza Lipski explica a importância da Libras e os desafios ainda enfrentados pela comunidade surda
Comemorado em 23 de setembro, o Dia Mundial das Línguas Gestuais destaca a importância das línguas de sinais e dos direitos das comunidades surdas. No Brasil, a Libras foi reconhecida oficialmente em 2002.
Para falar sobre o tema, o Jornal Correio do Povo do Paraná conversou com Luiza Lipski, formada em Administração, Pedagogia e Letras-Libras e pós-graduada em Educação Especial. Atualmente, ela atua como tradutora e intérprete de Libras na área da educação, intermediando a comunicação entre alunos surdos, professores e a comunidade escolar e acompanhando de perto os desafios enfrentados pela comunidade surda.
Jornal Correio do Povo do Paraná – Quando falamos em ‘línguas gestuais’, do que estamos falando exatamente? Como elas surgiram e de que forma se estruturam como línguas, e não apenas como um conjunto de gestos?
Luiza Lipski – Estamos falando de uma língua natural, complexa e completa, com estrutura própria. É uma língua visual-espacial, produzida pelas mãos, pelo corpo e pelas expressões faciais e percebida pelos olhos.
A língua de sinais não depende da língua falada e possui estrutura gramatical e sintática própria. Surgiu naturalmente dentro das comunidades surdas. Não é mímica nem um conjunto de gestos.
Correio do Povo – Existe uma ideia de que a língua gestual é universal. Essa afirmação está correta? Existem diferentes línguas gestuais pelo mundo, assim como existem diferentes línguas faladas?
Luiza Lipski – Essa afirmação está incorreta. As línguas de sinais mudam de um país para outro e também apresentam variações regionais. Existem cerca de 300 línguas de sinais em uso no mundo.
No Brasil, utilizamos a Libras, reconhecida oficialmente em 2002. Também existem línguas de sinais utilizadas por algumas comunidades indígenas.
Correio do Povo – Além da comunicação, qual é a importância das línguas gestuais para a cultura, a identidade e a história das comunidades que as utilizam?
Luiza Lipski – A língua de sinais é muito mais do que uma ferramenta de comunicação. Ela é um pilar da identidade, da cultura e da história das comunidades surdas.
Por meio dela, as pessoas surdas podem se expressar, participar da sociedade e exercer seus direitos. A Libras também está ligada à luta da comunidade surda por reconhecimento e inclusão.
Correio do Povo – Por que é importante que as línguas gestuais sejam conhecidas, valorizadas e reconhecidas pela sociedade, inclusive por pessoas que não utilizam essas línguas no dia a dia?
Luiza Lipski – Conhecer e valorizar a língua de sinais é importante para garantir inclusão social, igualdade de direitos e respeito à comunidade surda.
Não tem como criar um outro planeta para a comunidade surda. Eles vivem no mesmo planeta que os ouvintes. Então, precisa haver inclusão, empatia e respeito. São cidadãos e merecem ter acesso à cidadania, à educação e à saúde.
Ainda existem barreiras na educação, na saúde e em outros espaços, muitas vezes pela falta de intérpretes e de ambientes acessíveis.
Correio do Povo – Existe alguma questão sobre as línguas gestuais, sua história, diversidade ou importância que eu não perguntei e que você considera importante destacar na matéria?
Luiza Lipski – Não devemos pensar que a língua de sinais é algo simples, apenas mímica ou gesto. Ela tem a mesma riqueza e as mesmas propriedades das línguas faladas.
A única diferença está na questão linguística. As pessoas surdas utilizam uma língua em uma modalidade diferente. Elas fazem parte da sociedade e precisam ser incluídas.
Ampliando o acesso
Atuando na área desde 2011, Luiza vê o trabalho com Libras como uma forma de ampliar o acesso das pessoas surdas ao conhecimento e à comunicação. Para ela, a língua de sinais não deve ser tratada apenas como um conjunto de gestos ou mímicas.



