Livro aproxima alunos da realidade do autismo

‘Alicia: Meu Mundo Azul é Bem Real’ reúne vivências de Divonete e ilustrações feitas pela filha para promover a conscientização

Um livro infantil produzido por duas pessoas autistas quer ajudar crianças, famílias e professores a compreender melhor o autismo. Intitulada ‘Alicia: Meu mundo Azul é Bem Real’, a obra foi escrita por Divonete Bittencourt Scheffer, professora e neuropsicopedagoga que mora em Laranjeiras do Sul, e ilustrada pela filha, Alícia, que também é autista. O projeto recebe recursos da Política Nacional Aldir Blanc por meio da secretaria de Cultura de Laranjeiras do Sul e prevê a distribuição gratuita dos exemplares às escolas e aos centros de educação.

A proposta nasceu da experiência de Divonete na educação especial, na atuação clínica e na vivência como mulher autista e mãe de filhos autistas. O objetivo é apresentar características do espectro em uma linguagem acessível ao público infantil e juvenil, ajudando a reduzir barreiras causadas pela falta de informação.

“Sempre me pediram para contar a minha história e minha experiência. Eu atuo em várias frentes, professora, pessoa com autismo, mãe de autistas, como profissional da área clínica e como ativista da causa autista”, conta Divonete.

A ideia, porém, tomou outro rumo quando ela decidiu usar a linguagem das crianças para abordar o tema. “O livro não é sobre mim, ou sobre Alícia, mas sobre autismo e suas nuances. E a ilustração feita por ela agrega um significado infinito à obra”, afirma.

Desenhos como forma de expressão

Alícia tem dificuldades para expressar verbalmente tudo o que deseja comunicar. No desenho, porém, encontrou uma forma de mostrar emoções, necessidades e imaginação. Segundo a mãe, a atividade se tornou um hiperfoco da menina e já apresenta características próprias.

“Eu considero que toda forma de expressão deve ser valorizada, em especial quando a comunicação é uma barreira. Não acho necessário que se atinja uma excelência naquilo que uma pessoa faz, creio que o valor está no significado”, diz a professora.

Para ela, os desenhos são um dos pontos centrais do livro porque mostram a capacidade de Alícia de se comunicar por outros meios. A produção também busca demonstrar que pessoas autistas podem desenvolver trabalhos significativos quando encontram condições adequadas.

“Nem sempre queremos que nos deem, que façam por nós, precisamos apenas das condições para fazer e desenvolver”, afirma a autora.

A obra foi concebida como um trabalho produzido integralmente por pessoas autistas. Para Divonete, essa participação direta amplia o sentido do projeto, ao colocar pessoas do espectro não apenas como tema, mas também como criadoras do conteúdo.

Informação para crianças e professores

O livro apresenta características do espectro autista em uma linguagem simples, com a intenção de explicar comportamentos que nem sempre são compreendidos por quem convive com pessoas neurodivergentes.

A autora espera que o material possa ser usado como recurso pedagógico nas escolas, sobretudo em atividades de inclusão. A distribuição gratuita busca facilitar o acesso à obra e permitir que professores incorporem o conteúdo aos projetos desenvolvidos em sala de aula.

“A maioria das barreiras que é encontrada pelos neurodivergentes se trata de falta de conhecimento e informação”, afirma Bittencourt. Por isso, ela considera importante abordar o tema ainda na infância, período em que crianças desenvolvem formas de compreender e se relacionar com as diferenças.

A expectativa é que a leitura ajude os alunos a reconhecer necessidades distintas entre os colegas e a agir com mais empatia. “Espero que uma criança possa compreender o coleguinha, e ser empática com ele, quando percebe que algo está diferente”, diz.

Experiência com inclusão vai além do livro

A atuação de Divonete também inclui iniciativas ligadas ao esporte e à defesa dos direitos das pessoas com deficiência. Ela é conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) e participa de ações em parceria com a Associação Colibri.

Há mais de um ano, ela também atua em aulas de jiu-jítsu adaptado para crianças, jovens e adultos neurodivergentes na academia KGB Artes Marciais, sob supervisão do professor Jefferson Rodrigues. O projeto começou em parceria com a Associação Colibri e busca estimular o desenvolvimento dos participantes e superar barreiras por meio do esporte.

Divonete foi convidada a ministrar as aulas por sua formação na área educacional e sua experiência esportiva. Para ela, a inclusão precisa se traduzir em ações concretas, tanto na escola quanto em outros espaços da sociedade.

Recursos culturais viabilizam a publicação

A publicação foi viabilizada com apoio da Política Nacional Aldir Blanc, que financia projetos culturais. Segundo Bittencourt, o incentivo permite tirar do papel iniciativas que muitas vezes esbarram nos custos de produção.

A autora destaca que a região reúne talentos, mas nem sempre conta com recursos para transformar projetos em obras acessíveis ao público. No caso de ‘Alícia, meu mundo azul’, a proposta é garantir que o material chegue às instituições de ensino sem custo.

“Espero que mais famílias e pais possam compartilhar suas experiências, que sejamos todos mais humanos e tolerantes, que possamos respeitar a todos como seres humanos que somos”, conclui.