Confeitaria transforma restrições alimentares em inclusão

Odete Piovesan conta como a cozinha se tornou espaço de cuidado e pertencimento

O crescimento no número de diagnósticos de alergias e restrições alimentares tem provocado uma mudança silenciosa, porém profunda, na forma como as pessoas se relacionam com a comida. Intolerâncias ao glúten, à lactose, alergias ao ovo e restrições ao açúcar deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da realidade de muitas famílias. Ao mesmo tempo, cresce o número de consumidores que, mesmo sem diagnóstico clínico, optam por retirar esses ingredientes da alimentação em busca de mais saúde, equilíbrio e bem-estar.

Esse movimento tem ampliado a demanda por alimentos adaptados, seguros e, sobretudo, saborosos. A mesa, antes marcada por exclusões, começa a se tornar um espaço de inclusão. Nesse novo cenário, profissionais que unem técnica, pesquisa e sensibilidade ganham protagonismo, como é o caso da confeiteira Odete Maria Piovesan Doré, que transformou uma vivência familiar em um trabalho voltado ao cuidado com o outro.

Uma mudança que começou em casa

Com experiência na confeitaria desde os anos 1990, Odete sempre manteve os bolos presentes na vida profissional e familiar. No entanto, foi em 2022 que sua trajetória tomou um novo rumo. A neta Alice, ainda com nove meses de idade, recebeu o diagnóstico de alergia severa ao glúten e ao ovo. A partir dali a cozinha precisou se reinventar.

Foi quando eu descobri que a Alice tinha um grau alto de alergia a ovo e glúten que tudo começou”, conta Odete. A necessidade de oferecer alimentos seguros para a neta levou ela a pesquisar intensamente e testar novas combinações de ingredientes. O desafio não era apenas substituir componentes, mas garantir sabor, textura e segurança segundo a avó.

O que começou como cuidado familiar rapidamente despertou o interesse de outras pessoas. “As pessoas começaram a me procurar para atender diabéticos, intolerantes ao glúten, a lactose e a proteína do leite”, conta. Assim, a confeitaria que atende este público deixou de ser exceção e se tornou especialidade.

Procura crescente e histórias que marcam

Segundo Odete, os anos de 2024 e 2025 registraram o maior aumento na procura por produtos adaptados, principalmente por pessoas com intolerâncias alimentares. Entre os públicos atendidos, os diabéticos representam um dos maiores desafios técnicos, e também as experiências mais marcantes.

Ela lembra, com emoção, de um jovem de 18 anos que tinha um sonho simples, mas até então impossível. “Ele sempre quis sentar e comer uma torta inteira de limão sem precisar se preocupar em aplicar insulina”, relata. Após o desenvolvimento da receita sem açúcar, segundo ela o momento foi inesquecível. “Ele conseguiu comer a torta sem precisar da insulina. Foi muito emocionante”, afirma.

Outro caso envolveu um pai diabético que, durante anos, assistiu à família comer bolo nos aniversários enquanto ele se limitava às frutas. “Quando eu consegui fazer o bolo sem açúcar e ele finalmente pôde comer, foi muito especial”, relata a confeiteira.

Inclusão além do diagnóstico

Embora a maior parte da demanda ainda venha de pessoas com restrições diagnosticadas, um novo perfil de cliente começa a se consolidar: o de quem busca uma alimentação mais saudável por escolha. Essa mudança, segundo Odete, ganhou força especialmente a partir de 2025.

“As pessoas sem diagnóstico estão começando agora a procurar mais, principalmente pães sem glúten, pensando em saúde”, observa. A tendência reflete um comportamento cada vez mais atento à composição dos alimentos e aos impactos da alimentação no dia a dia.

Mais do que receitas, histórias

Para Odete, a maior motivação está no impacto humano do trabalho. “É muito gratificante quando a pessoa diz que nunca imaginou que pudesse comer algo sem glúten, sem ovo ou sem açúcar e que estivesse tão bom”, afirma.

Os bolos feitos para a neta, inclusive, são os mesmos servidos a toda a família. “Eu não faço separado para ela. Todo mundo come o mesmo bolo”, conta, reforçando o conceito de inclusão que orienta seu trabalho.

Segundo Odete em um cenário em que diagnósticos aumentam e a busca por saúde se intensifica, a confeitaria inclusiva deixa de ser apenas uma alternativa e passa a representar acolhimento, dignidade e pertencimento. “Quando o alimento é seguro, ele deixa de ser apenas comida, e volta a ser celebração”, conclui.