O que está por trás do caos nos Correios?

Com apenas dois profissionais da agência, população padece na expectativa por correspondências. Estima-se que 20 mil cartas estão encalhadas na unidade

Por Thamiris Costa

Quem mora em Laranjeiras do Sul deve ter notado nos últimos meses a demora para receber correspondências (cartas). E quem vai à agência dos Correios pode se deparar com pilhas de cartas. Segundo o delegado sindical da unidade, estima-se que 20 mil delas estejam encalhadas.

Diante disso, a população tem notado o que aparenta ser uma ineficiência dos profissionais, mas que na realidade trata-se de um problema grave da estrutura da empresa.  “Não há concurso desde 2011. Houve desde então quatro planos de demissão voluntária, sem a reposição do pessoal. O efetivo sofreu uma redução de quase 30%. Enquanto isso, o fluxo de postagens cresceu na faixa de 44% a 55%, dependendo do segmento. Isso gerou um acúmulo de serviços, uma precarização”, comenta o secretário de Formação e Estudos Socioeconômicos do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Comunicações Postais, Telegráficas e Similares do Paraná (SINTCOM-PR), Alexsander Soares Menezes.

Reposição de carteiros

Laranjeiras possui mais de 32 mil habitantes. Para dar conta da demanda, cerca de sete profissionais se dividiam em oito áreas, conforme o Correio do Povo apurou com o delegado sindical, que pediu para não ser identificado. O problema é que a equipe sofreu desfalques. “Um carteiro passou num concurso. Outro pediu a conta, outro foi transferido. Agora, um está acidentado, tem um de férias e outro trabalhando apenas internamente. O único motoqueiro que está aqui na verdade é de Rio Bonito. No total, são dois”, revela.

Alguns carteiros de Guaraniaçu vêm a Laranjeiras às terças e quintas para aplacar a demanda, mas a ajuda não é suficiente. “É triste, nem em época de greve não vi as coisas tão atrasadas assim”, revela o delegado sindical.

Regiões não recebem entregas

Quando se analisa o crescimento urbano de Laranjeiras, fica evidente que em vez de suprimir, os Correios deveriam investir em mais profissionais na agência. Afinal de contas,  Marchese, Jardim Paris, Bodanese, Babinski e Alphaville são exemplos de novos loteamentos que foram criados nos últimos anos. Alguns sequer estão cadastrados para entregas.

O radialista Ivan Theo mora no Jardim Paris. Como não há prestação de serviços por lá, ele recebe as correspondências na Rádio Campo Aberto. Mas nem todos têm o mesmo recurso e a alternativa então não é outra, senão ir enfrentar filas semanalmente na agência.

As filas, aliás, são cada vez maiores, ainda mais com o horário de atendimento reduzido em razão da pandemia. “As encomendas até estão em dia. O que está mais atrasado são as cartas. Tem umas 20 mil paradas”, lamenta o delegado sindical.

Privatização

Para o secretário do SINTCOM-PR, a precarização no atendimento dos Correios é proposital e busca causar na população a sensação de que a estatal é ineficiente para poder embasar a privatização. “Não há perspectiva de que essa situação se resolva. Os trabalhadores estão preocupados com o atendimento à população, que é vítima dessa política de sucateamento para uma eventual privatização, que não vai atender cidades de pequeno e médio porte. Os micro e pequenos empresários serão afetados, pois o e-commerce será um dos serviços prejudicados”.

Paralisação iminente

O Sindicato dos Trabalhadores dos Correios do Paraná fará uma reunião ainda nesta semana na agência e, se não houver melhora nas condições de trabalho, a unidade fará uma paralisação de advertência.

“É uma tentativa de difamar a imagem da empresa e dos trabalhadores dos Correios. ‘É o carteiro que não atende, que não leva a correspondência’. Cria-se a imagem negativa, fundamentada numa premissa falsa”, argumenta.

Não é só em Laranjeiras

De acordo com Alexsander, o que ocorre em Laranjeiras se repete em outras regiões do Paraná e do Brasil. “Essa deficiência é sentida nas cidades de pequeno e médio porte e nas de menor atratividade econômica. Os serviços concorrentes, das encomendas, tiveram aumento na demanda, mas ainda assim a iniciativa privada não tem condições de atender municípios como Laranjeiras do Sul”.

Posicionamento dos Correios

A reportagem do Correio do Povo do Paraná procurou o responsável pela agência de Laranjeiras para ouvir o posicionamento da empresa. Impedida de se posicionar, a unidade nos repassou para a central de Curitiba. Após solicitação, não recebemos resposta até o fechamento desta edição. Assim que a empresa o fizer, publicaremos na edição seguinte.