O desânimo vira filme de terror do cineasta Dario Argento

O romano aproveitou o confinamento na Europa, em função da covid-19, para levar seus conhecimentos sobre o terror para uma outra fronteira

Embora a pandemia tenha adiado as filmagens de seu novo longa-metragem, Occhiali Neri, no momento em que celebrava seus 50 anos de carreira como realizador, o romano Dario Argento confessa ter aproveitado os períodos de confinamento da Europa, em função da covid-19, para levar seus conhecimentos sobre o terror para outra fronteira: a das narrativas serializadas.
Artesão maior do Giallo, filão à italiana na fronteira entre o horror e o suspense, sempre com lâminas afiadas ou manifestações sobrenaturais sedentas de sangue, o diretor de Suspiria (1977) e Phenomena (1985), filho da fotógrafa brasileira Elda Luxardo ,anda afoito para desbravar o streaming, tendo um projeto chamado Longinus. 
Desde Drácula 3D, exibido em Cannes em 2012, ele não filma, tendo no currículo pérolas pop do assombro como Tenebre (1982) e Prelúdio Para Matar, pelo qual ganhou o prêmio de melhor direção no Festival de Stiges, na Espanha em 1976.
Em outubro, ao ser homenageado no Ca’ Foscari Short Film Festival, em Veneza, ele prometeu voltar aos sets em maio, para filmar o tal Olhos Negros que o Corona vírus atrasou, sobre uma jovem que perde a visão e passa a ser perseguida por um monstro. E desenvolve seu seriado paralelamente, tentando entender o que vai sobrar do Velho Mundo após a ressaca pandêmica.
A metáfora do ver, do olhar, para ele se destaca presença de uma protagonista mulher que acaba de perder a visão e passa a ser perseguida por alguém que não consegue ver, segundo Occhiali Neri sempre investiu na força do feminino nas histórias. 
Ele comenta que fez 80 anos em meio a um processo histórico pandêmico que nos leva a um desânimo coletivo, que traduziu nossa impotência na forma de lockdowns. “Fiquei confinado em casa lendo e vendo filmes, mas tive que lidar com as mudanças de data em Occhiali Neri, que pretendia rodar em abril e terei que jogar para maio de 2021. 
Há o plano de fazer minha série, Longinus, e levá-la ao streaming, que viceja como um caminho novo. Tenho a sensação de que a minha obra sempre falou de forças que invadem vidas alheias, rompendo uma lógica de sanidade e gerando perigo. De certa forma, foi esse o saldo do coronavírus. Ele invadiu nossas vidas e ele deixou tudo menos são” afirma Occhiali.


Cineastas
Os grandes cineastas italianos da geração dos anos 1940 e 50 deram ao mundo parábolas políticas. Parábolas que foram um resultado do horror da Segunda Guerra e das barrigas que roncavam famintas diante da tragédia fascista que destruiu o país. O motor neorrealista é a fome. O motor do meu Giallo são os sonhos que tenho.
“Tem algo de Freud e Jung nas tramas que eu filmo, pois eles dois mudaram nossa representação do mundo a partir do inconsciente. Os assassinos dos meus filmes são a metade sombria do nosso inconsciente. Meus monstros são um reflexo dos meus sonhos de criança’’ finaliza ele.
 

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