João Cabrini transforma álbum da Copa em ponto de encontro
Convidado destaca a ‘febre’ das figurinhas e explica como a Livraria Cultura se tornou referência nas trocas das ‘repetidas’
Faltando duas semanas para o início da Copa do Mundo, a movimentação em torno do tradicional álbum de figurinhas já tomou conta da rotina de colecionadores em Laranjeiras do Sul. Em uma cidade onde o futebol costuma reunir famílias, amigos e vizinhos, a Livraria Cultura se transformou em um ponto de encontro para quem tenta completar as páginas do álbum oficial do torneio.
Todos os sábados, antes mesmo da abertura da loja, crianças, pais, adolescentes e colecionadores veteranos aguardam com caixas, envelopes e sacolas cheias de figurinhas repetidas. O espaço virou referência para trocas presenciais e também para a organização de um grupo de WhatsApp criado para aproximar os participantes.
Convidado do episódio 46 do podcast ‘Correio Esportivo’, o sócio-proprietário João Cabrini falou sobre o crescimento da procura pelos álbuns e sobre como a cultura das figurinhas acabou fortalecendo laços entre os moradores da cidade.
“Essa febre, assim, aconteceu logo que eu vim pra Laranjeiras”, afirmou. “Cada Copa do Mundo faz crescer ainda mais o número de colecionadores”. Segundo João, o álbum da Copa ocupa um espaço diferente no imaginário dos torcedores. “Existem outros álbuns durante o ano, mas Copa do Mundo é outra coisa. Na Copa é a febre mesmo”.
Eu queria ajudar o pessoal a completar o álbum, não foi pensando em vender mais. As pessoas começaram a pedir contato umas das outras, então pensei que seria mais fácil reunir todo mundo em um grupo. Hoje tem mais de 200 pessoas ali.
João Cabrini
Sócio-proprietário da Livraria Cultura
Ele explica que o interesse não se limita apenas às crianças. “Hoje tem muito adulto que coleciona. Há dois anos atrás, o pessoal tinha três filhos, três álbuns. Aí o que sobra de um, já põe no outro. Muita gente também fala que compra para o filho, mas o filho tem dois meses. Teve um rapaz que tinha acabado de casar e estava com um bebê recém-nascido. Mesmo assim, aparecia todo dia perguntando de figurinha e pedindo para separar repetidas”, brinca.
Natural de Curitiba, João afirma que já conhecia o costume das trocas presenciais antes de chegar a Laranjeiras do Sul. “Lá isso já era muito forte, e eu pensei em criar algo parecido aqui. Lá, o pessoal trocava por carta, figurinha, uma coisa diferente. Depois, com a tecnologia, o pessoal começou a interagir mais”.
Com o tempo, João criou um grupo de WhatsApp para aproximar os colecionadores. A ideia começou ainda na Copa de 2018. O grupo cresceu rapidamente e hoje reúne centenas de participantes. “Tem mais de 200 pessoas ali. O pessoal troca figurinha o tempo inteiro”, contou.
Troca de figurinhas vira encontro entre famílias
Os encontros presenciais passaram a movimentar a rotina da livraria principalmente aos sábados. “Às vezes oito horas da manhã já tem gente esperando. O pessoal chega cedo com as figurinhas repetidas”, relatou João.Segundo ele, a troca acabou criando um ambiente de convivência entre famílias. “Vem pai, mãe, filho, avô e de vez em quando eles fazem dois, três álbuns. Esse ano as famílias estão optando fazer um álbum só, um ou dois, mas tem família inteira colecionando o álbum”.João acredita que a nostalgia ajuda a explicar o sucesso do movimento. “É uma lembrança de infância para muita gente, revive aquilo que fazia quando era criança”, disse.Para facilitar a dinâmica das trocas, a livraria passou a funcionar também como ponto de apoio. “Eu deixo uma caixinha separada e os colecionadores deixam a figurinha para outra pessoa buscar depois”.Ele conta que muitos participantes acabaram criando amizade a partir dos encontros. “Tem gente que descobriu ali que era vizinho. Já fiz amizade por causa de figurinha”, afirmou.Além dos moradores de Laranjeiras do Sul, colecionadores de cidades vizinhas também passaram a frequentar o espaço. “Vem gente de Rio Bonito, Marquinho e Nova Laranjeiras, o povo de lá se organiza para trocar aqui”.Segundo João, o ambiente fechado e organizado também oferece mais segurança para as crianças. “Os pais conseguem ficar tranquilos. As crianças ficam ali dentro, protegidas”, disse.
Figurinhas raras aumentam a procura
Além das figurinhas comuns, a nova edição do álbum trouxe as chamadas figurinhas lendárias, versões especiais de jogadores famosos e as mais difíceis de encontrar nos pacotes. Elas se tornaram alvo dos colecionadores mais dedicados.“Essas são as mais procuradas. Tem dourada, prata, bronze e outras especiais. As versões roxas costumam surgir em cerca de um pacote a cada 190 e as bronzez aparecem em média a cada 317 pacotes”, disse Cabrini.Segundo ele, a raridade aumenta ainda mais o interesse. “As prateadas aparecem em aproximadamente um a cada 900 pacotes”, disse. “Já as douradas são as mais complicadas. A estimativa é de uma a cada 1.900 pacotinhos”.
As figurinhas especiais também geram situações curiosas dentro da livraria. “Teve criança que pegou uma lendária e falou que ia jogar bafo”, contou, aos risos. “Os colecionadores ficaram desesperados”.João explica que muitos adultos tratam as figurinhas como itens de coleção. “Quem coleciona quer tudo perfeito, não pode ter marca nem amassado”.A edição do álbum de 2026 também chama atenção pelo tamanho. “São 980 figurinhas. É um dos maiores álbuns já feitos”, contou.Segundo ele, o aumento no número de seleções ajudou a ampliar o álbum. “Tem muita seleção diferente, até Curaçao entrou”.Apesar da concorrência maior neste ano, com supermercados e farmácias também vendendo figurinhas, João afirma que a tradição da livraria segue forte. “O pessoal já acostumou a vir aqui. Virou um ponto de encontro”, disse.Ele acredita que a experiência vai além da compra. “Não é só figurinha. É conversa, amizade e futebol”, afirmou.João também destaca o impacto econômico do período para o comércio. “Claro que ajuda no movimento, a Copa acaba trazendo mais gente para a livraria”, declarou.Mesmo fora dos anos de Mundial, o grupo criado por ele segue ativo. “Tem colecionador de Pokémon, Hot Wheels e álbum do Brasileirão. O pessoal continua trocando ideia o ano inteiro”, compartilhou.A intenção, segundo João, é manter a tradição nas próximas edições da Copa do Mundo. “Enquanto existir álbum, vai existir troca”, afirmou.Ele acredita que o encanto dificilmente desaparecerá. “Copa do Mundo é uma paixão muito forte. O álbum faz o torcedor sentir que participa disso”, afirmou.Para João, a tradição das figurinhas representa mais do que entretenimento. “O álbum aproxima as pessoas, e isso é o mais legal de tudo”, conclui.



