Jovens, professora e escritora relatam como os livros influenciam pensamento, linguagem e identidade
Da descoberta ao hábito, da leitura à escrita: histórias que revelam o poder dos livros em transformar trajetórias
Celebrado em 23 de abril, o Dia Mundial do Livro reúne histórias que revelam o papel da leitura na vida de leitores e escritores. Entre descobertas ainda na infância e experiências que atravessam décadas, os depoimentos mostram como os livros ajudam a formar pensamento, linguagem e identidade.
Para a estudante Letícia Akira Finochetti Saito, de 13 anos, o início da leitura não veio da escola, mas de um momento comum. “Eu tava na casa da minha tia, e naquele momento estava sem nada pra fazer. Daí eu lembrei do livro que a minha irmã tinha levado”, conta. O contato com “A Casa na Árvore de Três Andares” despertou o interesse. “Quando eu percebi que era um livro de fácil leitura, eu comecei a ler. E comecei a gostar dessa coleção.”
O hábito cresceu com o acesso à biblioteca escolar. “Quando entrei no colégio, eu fiquei maravilhada com a biblioteca. Ela é muito grande, tem literalmente tudo um pouco”, relata. Para Letícia, ler é uma experiência de imersão. “Parece que eu fugi do mundo. É como se a minha imaginação abrisse um portal para outra dimensão. A gente nem vê como o tempo passa.”
Monique Ayumi Finochetti Saito, também de 13 anos, aponta a escola como fator decisivo. “Comecei a ler no 6º ano com o incentivo da biblioteca. Ter uma grande variedade de livros me fez poder escolher o que queria ler”, afirma. A identificação com as histórias é o que sustenta o interesse. “Eu gosto de ler porque posso viajar na história e me sentir parte dela. É quando eu fujo da vida real e entro na vida da história sem nem perceber o tempo passar.”
Já Isadora Akemi Finochetti Saito relata que o incentivo veio dentro de casa. “Minhas irmãs começaram a ler antes de mim. Elas sempre falaram para eu ler, mas eu não queria. Depois de tanta insistência, comecei e gostei”, relata. Hoje, ela reconhece benefícios práticos da leitura. “Ajuda bastante na pronúncia e enriquece o vocabulário.” A estudante também destaca o aspecto criativo. “É muito legal ficar imaginando o cenário do livro.”
Leitura e desenvolvimento
A estudante Mariana Ubiali Popia, de 14 anos, começou a ler aos 11. Desde então, percebe mudanças claras. “Eu gosto de ler mais por diversão, para dar uma acalmada na mente, mas também acho que a leitura é muito importante para o desenvolvimento da oratória, escrita e redações”, afirma.
Segundo ela, os resultados apareceram com o tempo. “As redações começaram a ficar sem erros ortográficos, a fala ficou sem travas.” O contato frequente com livros também ampliou o repertório. “Atualmente já li mais de 60 livros e tenho praticamente uma mini biblioteca em casa.”
Para a professora Maria Aparecida Carvalho Vaz, conhecida como Ci Carvalho, a leitura foi determinante desde a infância. Ela conta que não frequentou escola até os 9 anos, quando a família deixou o sertão da Bahia. “Quando comecei a estudar, eu me encantei com as letras desde o primeiro dia.”
Sem acesso a livros em casa, ela buscava leitura onde fosse possível. “Eu lia tudo que aparecia na minha frente. Lia rótulos de embalagens, repetia as leituras da cartilha”, lembra. O envolvimento com as histórias era intenso. “Enquanto a professora contava, eu fechava os olhos e imaginava os personagens, o som dos pássaros, sentia a alegria e a tristeza.”
A leitura abriu caminhos. “Ganhei vários prêmios em redação e soletrar. Nunca reprovei e sempre me destacava”, afirma. Ci conta que passou a escrever cartas para outras pessoas. “As pessoas ditavam e eu escrevia. Era algo muito prazeroso.”
Anos depois, já no Paraná, um acidente mudou sua rotina. “Fiquei muito tempo em cadeira de rodas, com dificuldade de locomoção”, relata. Mesmo assim, decidiu cursar Letras. “No segundo ano, a literatura me abraçou para sempre.” Segundo ela, o contato com os textos ajudou na recuperação emocional. “Minha autoestima foi fortalecida pelas narrativas e pelos autores.”
A experiência levou à atuação como professora e mediadora. “Os livros salvam. Eles dão voz a quem não consegue falar, acolhem quem está em silêncio e mostram que ninguém está sozinho”, afirma.
Escrita e conexão com o leitor
A escritora Pithi Martinelli define a escrita como um processo criativo que nasce da leitura. “Vejo algo profundamente mágico na capacidade da mente humana de criar. Escrever é dar forma a mundos que não existem, mas que ganham vida na imaginação de quem lê”, afirma.
Ela descreve a leitura como um espaço de pausa. “Os livros sempre foram um refúgio. Um lugar onde posso descansar a mente e me desligar da correria e das preocupações.” Durante a leitura, há uma troca silenciosa. “É como se o meu próprio eu se silenciasse para dar espaço à voz do autor.”
Ao falar sobre escrever, destaca a mudança que ocorre quando o texto encontra leitores. “No começo, era algo íntimo, uma forma de organizar pensamentos. Mas tudo mudou quando outras pessoas começaram a ler”, relata. A reação do público traz outra dimensão ao trabalho. “É como ver aquilo que existia só na minha mente ganhar vida dentro de outra pessoa.”
Para a autora, esse processo cria vínculos. “Saber que consigo despertar nos outros as mesmas emoções que senti como leitora é uma das experiências mais marcantes que já vivi.” Ela resume o impacto em uma ideia central. “Escrever deixou de ser um ato solitário. Tornou-se uma forma de conexão, silenciosa, mas real.”
Ao reunir relatos de diferentes idades e experiências, o Dia Mundial do Livro evidencia a permanência da leitura como prática essencial. Entre imaginação, aprendizado e expressão, os livros seguem presentes na formação de leitores e também na construção de novas histórias.



