Passados alguns dias do aborto criminoso em Laranjeiras do Sul, onde uma jovem após utilizar medicamento dispensou o feto em um banheiro público, o caso ainda não caiu no esquecimento. Ana Cláudia Ribeiro, 18 anos, relatou à polícia que o pai da criança abortada, depois de um consenso, entregou-lhe o remédio conhecido por Cytotec, que é proibido no Brasil.
Segundo o advogado de defesa do suposto pai da criança, Dr. Almir Machado de Oliveira, o acusado tinha até a segunda-feira (16), para se entregar à Justiça. Almir Machado disse que o caso está na fase de inquérito e não existe a certeza da acusação. Antes do Ministério Público se pronunciar não podemos adiantar nada. Apenas depois disso teremos a certeza se ele será ou não acusado, ressaltou.
A MÁFIA DA MORTE
Conhecido como um dos medicamentos mais comuns para a prática do aborto, o Cytotec, mesmo proibido, é adquirido facilmente. Tanto via Paraguai, como pelo serviço dos Correios.
Conforme informações do farmacêutico Cristian Ricardo Pinto, que atua no CAPS-Semusa Laranjeiras do Sul, o Cytotec é o nome comercial do medicamento Misoprostrol que é um derivado sintético da Prostaglandiva E. A fórmula age diretamente nos receptores situados nas células parietais gástricas inibindo as secreções. No entanto, é utilizado indevidamente como abortivo.
Entre os principais efeitos está a hemorragia e as contrações de parto, que expelem o feto. Ele não age, portanto, sobre o próprio feto, apenas provoca a sua expulsão. O bebê morre não por ter sido agredido, mas, ao ser expulso, morre asfixiado. Embora o feto tenha os pulmões formados a partir do primeiro mês de gestação, antes dos seis meses e fora do útero pode inalar o ar, mas o oxigênio não consegue passar dos alvéolos para o sangue. O feto morre ao ar livre por asfixia, exatamente como ocorreria com uma pessoa que fosse estrangulada.
Conforme Cristian, até mesmo nos casos de gestação avançada o medicamento é utilizado, potencializando as doses. Os ‘carrascos dos fetos’ orientam as gestantes insatisfeitas com o ser em seu ventre que nos casos avançados, ao invés de só ingerir dois comprimidos, que também introduzam pela vagina até o colo do útero mais dois comprimidos, conta.
O farmacêutico explica que o medicamento chega ao Brasil por aeroportos e pelas fronteiras do Mercosul principalmente com o Paraguai, onde a comercialização também é ilegal, porém, comum pois a fiscalização é branda. Lá é possível comprar em algumas ‘farmácias’ e em camelôs pelas ruelas de Ciudad del Leste. Além disso, há a possibilidade de encomendar das famosas mulas que trazem os comprimidos a preços super faturados no mercado negro do tráfico internacional de substâncias proibidas, explica.
Cristian disse ainda que o preço do comprimido varia muito, devido ao alto risco empregado desde o processo da aquisição até possíveis consequências com a lei em decorrência do mau uso. Cada comprimido custa de R$ 100 a R$ 200. Como comparativo, no mercado legal (utilizado por médicos), o preço da caixa do medicamento, que vem acondicionado em embalagens, em duas versões, pote plástico e blister em caixa de papelão, contendo 28 comprimidos custa R$ 70. Ou seja: a unidade sai em média R$ 2,50, completa.
Segundo informações do diretor da regional do Correio de Ponta Grossa, responsável pelo envio das correspondências e encomendas para Laranjeiras do Sul, Osmar Eing, apenas em grandes centros as postagem passam por raio x. Nas regiões de fronteira, como Foz do Iguaçu, os pacotes são postados abertos. Salvo essas duas exceções, não há outros procedimentos de segurança. Aqui o pacote não é postado aberto. Se alguém enviar ou receber um sedex, não temos como pedir para abrir. Não tem como saber, ressaltou.
PERIGO
Mortes por hemorragias no uso do remédio não são muito comuns, principalmente porque nos casos típicos, a hemorragia assusta tanto que a mulher invariavelmente acaba procurando um hospital. Mas, caso não procure, certamente o quadro hemorrágico crescente provocaria uma parada cardíaca da mulher.
Em alguns casos a hipersensibilidade para com o remédio pode ser tal que ele provoca uma ruptura repentina de útero, logo ao ser ingerido ou mesmo mais tarde.
Se nada disso ocorrer e a hemorragia conseguir ser controlada em casa e isso não provocar a morte da gestante – coisa rara de acontecer – pode, no entanto, estar acontecendo outra coisa de muito risco.
Restos fetais ou placentários podem ter sido retidos dentro do útero durante todo este tempo e ter provocado uma infecção local. O remédio produz o descolamento da placenta, com a consequente morte do bebê. Mas o feto não é expulso. A gestante pensa que não aconteceu nada, não procura o médico, mas está na realidade tendo um aborto retido. Tanto o aborto retido como restos fetais e placentários podem fazer com que pus se acumule no útero, tentando em vão destruir os restos fetais ou de placenta, explica a farmacêutica Fátima Fragoso.
A medida em que o pus se acumula, ele invade a corrente circulatória da gestante e espalha-se pelo corpo todo. Isto é conhecido como septicemia. Quando se chega a este quadro, a única alternativa é a remoção dos restos fetais e placentários e a internação imediata da paciente em uma unidade de terapia intensiva. Mas a maioria das mortes por causa do uso do Cytotec não provém nem da hemorragia, nem da septicemia. Ocorre semanas ou meses após o uso e não se deve propriamente ao medicamento, mas sim ao uso caseiro, que é muito traumático, completou Fátima.
COMPRA PELA INTERNET
Após pesquisa, a reportagem do Jornal Correio encontrou dois vendedores via internet (pelo msn). Demonstrando interesse pela venda, o vendedor de Minas Gerais assegurou que em dois dias o medicamento estaria em Laranjeiras do Sul pelo preço de R$ 480. Além do remédio, estaria incluso um manual de instruções e a garantia de 100% no resultado.
Indagada sobre a origem, a pessoa se limitou a dizer que trabalha há 10 anos no ramo e compra o remédio da Itália. A encomenda chegaria em um envelope discreto e o pagamento deveria ser feito por transferência bancária ou depósito identificado. Em um momento da conversa, o vendedor foi questionado sobre como se sentia vendendo remédio para matar pessoas, e, respondeu com frieza. O problema é seu. O uso dele não é pra isso, fica a seu critério. Deve saber das consequências.
O outro, de São Paulo, nos primeiros instantes da conversa remeteu um e-mail explicando a forma correta de aplicar o medicamento. Identificando-se como Fábio Cytotec, ele garantiu a entrega dos comprimidos no prazo de três dias.
Segundo ele, a origem é inglesa, do laboratório Searle. O vendedor garantiu 80% na eficácia da medicação. Os preços variam de acordo com a quantidade dos medicamentos utilizados, que correspondem ao tempo de gravidez, sendo de R$ 300 a R$ 1 mil. Conforme ele, o aborto pode ser imediato ou demorar até quatro dias.
No medicamento original, em uma das laterais da embalagem, consta a seguinte advertência: Maternal death have been reported. The risk of uterine rupture increases with advancing gestational ages and with prior uterine surgery, including Cesarean delivery.
Mortes maternas tem sido reportadas. O risco de rompimento uterino aumenta com o avanço da idade gestacional e com cirurgias uterinas anteriores, incluindo parto cesariano.



