A mulher que desafiou os mitos para realizar o sonho de ter uma coruja
Cristiane Ferreira conta como Luna mudou sua vida e revela os desafios, os cuidados e o afeto por trás da criação legalizada da ave
O fascínio pelos animais acompanha Cristiane Ferreira dos Santos desde a infância. Primeiro vieram os cães e os pássaros, companheiros que marcaram diferentes fases da vida. Com o tempo, porém, a curiosidade passou a mirar espécies pouco comuns. Tarântulas, cobras e aves de rapina despertaram um interesse que, anos depois, resultaria na realização de um antigo sonho: dividir a rotina com Luna, uma coruja-da-igreja, conhecida também como suindara ou rasga-mortalha.
Moradora de Laranjeiras do Sul, Cristiane foi a convidada do PodCor, apresentado por Leandro, para contar como surgiu essa paixão, os desafios de criar um animal silvestre de forma legalizada e as histórias que coleciona ao lado da ave, hoje com quase sete anos.
Ela lembra que a decisão de ter uma coruja só aconteceu depois de muita pesquisa. Antes de qualquer passo, buscou informações junto ao Ibama para descobrir se havia criadouros autorizados no Paraná. Foi assim que encontrou um empreendimento credenciado em Teixeira Soares, onde Luna nasceu em cativeiro.
“Eu queria fazer tudo certinho. Liguei para o Ibama, perguntei onde existia um criadouro autorizado e só depois entrei em contato para saber valores, alimentação e todos os cuidados necessários,” conta.
A espera terminou em outubro de 2019, quando foi buscar a ave em Guarapuava. Luna tinha apenas 55 dias de vida e ainda conservava parte das penugens de filhote. “Quando eu vi aquela caixinha de transporte, saí correndo. Abracei a caixa e parecia uma criança realizando o maior sonho da vida.”
Uma rotina que exige preparo e responsabilidade
Apesar da aparência delicada, cuidar de uma coruja exige conhecimento. Cristiane conta que recebeu ajuda de outros tutores para aprender detalhes do manejo, como o uso das atrelas, os cuidados com o bico e as unhas e a adaptação da ave ao novo ambiente. “Uma amiga de São Paulo me ajudou muito. Ela me ensinou como cuidar da Luna e entender as necessidades dela. Foi uma ajuda que nunca vou esquecer.”
A alimentação costuma surpreender quem demonstra vontade de ter uma coruja. Como ave de rapina, Luna se alimenta principalmente de ratos, pintinhos e codornas. “Quando eu conto como é a alimentação, muita gente muda de ideia. Não é um animal para quem não conhece a rotina.”
Segundo Cristiane, Luna possui toda a documentação exigida por lei, além da anilha de identificação instalada na pata. O registro comprova a origem legal da ave e permite, por exemplo, que ela viaje com a tutora quando necessário.
Mitos, convivência e uma relação construída com o tempo
Conhecida popularmente como rasga-mortalha, a espécie carrega uma série de crenças populares por causa dos hábitos noturnos e do grito característico. Cristiane, porém, afirma que a convivência mostrou uma realidade bem diferente.
“Tem gente que acredita que o grito anuncia morte. Eu sempre brinco que ela grita há anos e eu continuo aqui.“
Com o passar do tempo, a tutora aprendeu a identificar cada vocalização da ave. Hoje, diz reconhecer quando Luna está com fome, quando quer atenção ou simplesmente está “conversando“.
“Eu já conheço todos os sons dela. Sei quando está me chamando e até quando está dando aquela risadinha que parece deboche.”
Dentro de casa, Luna dorme durante o dia e desperta à noite, quando costuma voar pelo espaço reservado para ela. A convivência também se estende aos filhos de Cristiane. Enquanto Guilherme já se acostumou a manusear a ave, Bernardo mantém certa distância depois de algumas investidas provocadas pelo comportamento territorial da coruja.
Fora de casa, Luna chama atenção por onde passa. Em feiras e eventos, dezenas de pessoas se aproximam para fotografar, fazer perguntas e conhecer de perto uma espécie cercada por mitos.
“Eu gosto de explicar que ela é legalizada, que existe todo um processo para isso e que o mais importante é o bem-estar do animal.”
Ao encerrar a entrevista, Cristiane afirmou que seu maior objetivo é compartilhar informação e ajudar a desmistificar a imagem das corujas, mostrando que, acima de tudo, elas merecem respeito.
“Eu agradeço a oportunidade para o povo entender um pouquinho mais também,” concluiu.



